O filme Carolina Maria de Jesus venceu o prêmio A.H. Media Production Award durante o Festival de Cannes, na França. O anúncio foi feito na segunda-feira, 18 de maio, dentro da programação do Goes to Cannes, espaço do Marché du Film voltado a produções em desenvolvimento.
Dirigido por Jeferson De, o longa recebeu um prêmio de 10 mil euros. O júri destacou o protagonismo feminino e negro da produção, além da atuação de Maria Gal, que interpreta Carolina Maria de Jesus e também participa da produção do filme.
Inspirada na vida da escritora mineira, a obra acompanha a trajetória de uma mulher negra, catadora de papel e moradora da favela do Canindé, em São Paulo, que transformou os próprios diários em um dos livros brasileiros mais conhecidos no exterior.
Quem foi Carolina Maria de Jesus?
Carolina Maria de Jesus nasceu em 1914, na cidade de Sacramento, no Triângulo Mineiro. Filha de trabalhadores rurais, estudou apenas os primeiros anos do ensino fundamental, mas desenvolveu desde cedo interesse pela leitura e pela escrita.
Na década de 1940, mudou-se para São Paulo, onde viveu grande parte da vida em condições precárias na favela do Canindé. Para sustentar os filhos, trabalhava recolhendo papel, ferro e materiais recicláveis pelas ruas da cidade.
Mesmo diante da pobreza, Carolina mantinha o hábito de escrever diariamente. Em cadernos encontrados no lixo, registrava cenas do cotidiano, relatos sobre a fome, a violência, o racismo e as dificuldades enfrentadas por moradores das periferias urbanas brasileiras.
Os textos chamaram atenção do jornalista Audálio Dantas no fim da década de 1950. A partir desse encontro, seus diários foram organizados e publicados no livro Quarto de Despejo, lançado em 1960.
A obra se tornou um fenômeno editorial. O livro vendeu milhares de exemplares em poucos meses, foi traduzido para mais de dez idiomas e levou Carolina a ser conhecida em diversos países.
Além de escritora, Carolina também produziu poemas, composições musicais, peças teatrais e outros livros, como “Casa de Alvenaria”, continuação dos relatos sobre sua vida após o sucesso literário.
Por que a obra de Carolina segue atual?
Pesquisadores e estudiosos apontam que os escritos de Carolina Maria de Jesus continuam atuais por abordar desigualdade social, racismo estrutural, fome e exclusão urbana, temas ainda presentes na realidade brasileira.
A autora também passou a ocupar espaço central em debates sobre literatura periférica, representatividade negra e memória social no Brasil.
Durante décadas, sua obra foi pouco valorizada em parte do circuito literário tradicional. Nos últimos anos, porém, universidades, editoras e pesquisadores passaram a ampliar estudos sobre sua produção e importância histórica.
Trechos de “Quarto de Despejo” continuam sendo utilizados em escolas, vestibulares e pesquisas acadêmicas sobre sociedade brasileira e direitos sociais.
Como foi a preparação para o longa?
Para interpretar Carolina Maria de Jesus, Maria Gal passou por um processo de preparação de aproximadamente um ano entre Brasil e Estados Unidos. A atriz afirmou que perdeu mais de 18 quilos durante a construção da personagem.
Em entrevista à Vogue Brasil, ela declarou:
“Carolina Maria de Jesus vem salvando muitas vidas. Eu sou uma dessas pessoas.”
A atriz também relacionou a conquista em Cannes a um episódio vivido pela escritora mineira nos anos 1960.
“Quando o Brasil ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1962 com o filme O Pagador de Promessas, Carolina Maria de Jesus, apesar de ter sido convidada para a comemoração, foi impedida de entrar em um restaurante em São Paulo por ser uma mulher negra. Estar hoje em Cannes com um filme sobre sua vida carrega uma dimensão histórica, simbólica e profundamente emocionante para o cinema brasileiro.”
Qual é a importância da premiação?
O longa foi um dos cinco projetos brasileiros selecionados para o Rio Goes to Cannes 2026, iniciativa ligada ao Festival do Rio e à RioFilme para ampliar a presença do audiovisual brasileiro no mercado internacional.
A apresentação ocorreu no Palais des Festivals diante de produtores, distribuidores e representantes da indústria cinematográfica de diferentes países.
O Marché du Film reúne anualmente milhares de profissionais do setor audiovisual e é considerado um dos maiores mercados de cinema do mundo.
A estreia de Carolina Maria de Jesus nos cinemas brasileiros está prevista para este ano.







