Há uma cena que resume bem o momento político do Brasil em 2025. Um governo que se elegeu com votos de jovens urbanos, progressistas e conectados tenta aumentar o imposto de importação de smartphones e notebooks. A medida dura menos de um mês. Recua envergonhada diante da pressão do Congresso e das redes sociais. E sai de cena deixando uma pergunta no ar: o que o PT ainda tem a oferecer para a geração que cresceu com a internet no bolso?
A resposta, por enquanto, é pouco animadora.
Uma pesquisa AtlasIntel divulgada em dezembro de 2025 mostrou que 52% da Geração Z, nascidos entre 1995 e 2010, se declara de direita no Brasil. É o grupo etário com maior identificação com esse campo político no país, superando inclusive os millennials, que chegam a 51%. Entre os mais velhos, o padrão se inverte: baby boomers são maioria de esquerda, com 57%.

Não é uma coincidência incômoda. É um sinal que o PT e seus aliados insistem em ignorar.
O imposto que ninguém pediu
No início de fevereiro, o Ministério da Fazenda anunciou elevação de alíquotas de importação sobre cerca de 1,2 mil itens, incluindo smartphones e notebooks. Fernando Haddad defendeu a medida como proteção à indústria nacional e correção de distorções no comércio exterior. O governo estimava arrecadar até R$ 14 bilhões com a mudança em 2026.
O problema é que smartphones não são luxo para a Geração Z. São ferramenta de trabalho, de estudo, de renda extra e de acesso à informação. Taxar esse produto é taxar a infraestrutura básica de uma geração inteira, boa parte dela ainda sem emprego formal e sem capacidade de absorver reajustes de preço.
A reação foi imediata. Parlamentares da oposição e setores empresariais foram às redes. O próprio Congresso pressionou. Em 27 de fevereiro, o governo recuou, zerando tarifas de 105 itens e restabelecendo as alíquotas anteriores para smartphones, notebooks e outros eletrônicos.
Foi uma derrota política desnecessária, construída por uma medida que nunca deveria ter saído do papel na forma como saiu.
O que os jovens estão vendo
É tentador explicar a virada da Geração Z para a direita como resultado exclusivo das redes sociais, do YouTube ou do fenômeno Nikolas Ferreira, que aparece com 48% de avaliação positiva na mesma pesquisa AtlasIntel, à frente de Bolsonaro, Lula e Tarcísio. Essa leitura é parcialmente verdadeira, mas insuficiente.
Jovens que chegaram ao mercado de trabalho no pós-pandemia, convivem com juros altos, custo de vida crescente e informalidade como norma, não como exceção. Para essa geração, o Estado raramente aparece como solução. Aparece, com frequência, como obstáculo ou como cobrador.
Quando o governo federal propõe taxar o celular que essa pessoa usa para trabalhar como entregador, fazer freelas ou vender no Instagram, não está apenas cometendo um erro de política econômica. Está confirmando uma narrativa que a direita repete há anos: a de que o Estado quer o seu dinheiro e tem pouco a dar em troca.
Os limites do argumento
É preciso ser honesto sobre o que essa análise não prova. A pesquisa AtlasIntel não perguntou aos jovens por que se identificam com a direita, nem se o imposto sobre eletrônicos foi determinante nessa escolha. A causalidade direta não existe nos dados. O que existe é uma coincidência preocupante para a esquerda: ela perde terreno entre os jovens no mesmo período em que adota medidas que afetam diretamente o bolso e o cotidiano dessa faixa etária.
Também é verdade que a direita brasileira não tem, ela própria, uma agenda clara para a juventude de baixa renda. Nikolas Ferreira é bom em pautas de costumes e em confronto com o establishment progressista. Mas o que propõe concretamente para o jovem periférico que não tem emprego com carteira assinada? A pergunta fica em aberto.
O que está em jogo
O PT venceu eleições com uma narrativa de inclusão e redistribuição. Essa narrativa ainda tem força entre os mais velhos, que viveram o período de expansão do crédito e das políticas sociais dos anos 2000. Para quem tem menos de 30 anos, esse período é história, não memória.
Ganhar de volta essa geração exige mais do que recuar de medidas impopulares depois da repercussão negativa. Exige uma leitura honesta de que o jovem brasileiro de 2025 não é o mesmo de 2002, e que políticas pensadas para um Brasil diferente precisam ser repensadas para o Brasil de agora.
Enquanto isso não acontecer, cada medida mal calibrada como essa do imposto sobre eletrônicos vai funcionar como um presente embrulhado para a direita.







