Lançamento da biografia de Dom Damasceno acontece em Conselheiro Lafaiete

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Nascido na pequena cidade mineira de Capela Nova, Dom Raymundo Damasceno Assis tem uma forte ligação com a cidade de Conselheiro Lafaiete, onde foi ordenado padre em 1968. E é na cidade onde oficialmente iniciou sua vida eclesiástica que o religioso verá o último lançamento do ano de sua biografia intitulada “Viver na Alegria do Senhor – Dom Raymundo Cardeal Damasceno Assis” escrita pela biógrafa Rita Elisa Sêda.

Sêda diz que o Cardeal tem muita estima pela cidade, onde tem familiares e uma casa e sempre visita o local. Ela mesma esteve várias vezes no município e conheceu muitos lugares importantes para o religioso, apresentados por ele mesmo.

Dom Damasceno chegou a Lafaiete de maneira inusitada. Na época em que sua família se mudou para a cidade, ele morava em Mendes, no Rio de Janeiro. Ansioso por chegar ao município e reencontrar sua família, o jovem tomou o trem com destino à cidade mineira. Em determinado ponto, escuta um aviso de uma parada antes da chegada ao seu destino. O garoto desce, e após conversar com as pessoas do local, descobre que ainda não havia chegado onde seus pais o esperam e que deveria tomar outro trem. O adolescente decide então ir caminhando por cerca de 10 km da estação de Buarque Macedo até a cidade de Conselheiro Lafaiete. O relato dessa passagem interessante na vida do religioso é descrito com detalhes no livro, onde o leitor tem a oportunidade de “caminhar” com o menino e presenciar sua aventura e seus encontros pelo percurso. O jovem voltou a Minas Gerais da mesma forma como saiu, de trem e com apenas uma sacolinha com seus pertences.

Foi também com uma sacola que o menino Raymundo saiu de casa em busca de sua vocação num trem rumo ao Rio de Janeiro. Entre os 5 e 6 anos de idade, já decorava trechos da missa em latim e repetia em casa, brincando de sacerdote. A hóstia improvisada era feita com pedaços de banana. Quando estava prestes a completar 10 anos de idade, um irmão marista passou por Capela Nova e perguntou na catequese quem se interessava em ir com ele para o Rio de Janeiro. Imediatamente o menino levantou a mão, o único de sua turma. Dias depois, apesar de seus pais não acreditarem que ele realmente iria, o garoto partia para o Rio de Janeiro com o objetivo de cumprir sua missão de ser padre. Estudou com os maristas na fazenda São José das Paineiras na cidade de Mendes, experiência que lhe concedeu muito conhecimento, mas como Irmão não teria direito de celebrar missas. Como seu sonho era ser padre, decidiu mudar o rumo de sua vida, quando finalmente voltou para Minas Gerais de encontro a sua família que estava em Conselheiro Lafaiete. Como deveria procurar um seminário para se tornar padre, mudou-se para a cidade de Mariana, também em Minas em 1955, entrando para o Seminário Menor onde completou a formação necessária.

É também muito forte a relação de Dom Damasceno com Nossa Senhora e isso também teve início muito cedo. Antes de Raymundo, Carmen Damasceno, sua mãe, teve um filho que, devido a um relâmpago forte durante o parto teve sequelas graves ao longo da vida. Quando engravidou novamente, se apegou à Nossa Senhora da Conceição a quem orava constantemente e o consagrou antes mesmo de seu nascimento. Ficou também a promessa de dar ao filho o nome de Raymundo, caso viesse menino, em homenagem a São Raimundo Nonato, protetor das parturientes. Sua ligação com Nossa Senhora da Conceição perpassou toda a sua vida, sendo ele posteriormente denominado “Embaixador de Nossa Senhora” e era grande sua satisfação em entroniza-la em vários países e tinha especial alegria em levar a imagem em países recentemente saídos do regime comunista.

“Viver na Alegria do Senhor – Dom Raymundo Cardeal Damasceno Assis” é mais do que apenas uma biografia ou um livro voltado para católicos. A autora conta que teve acesso a documentos históricos primários e que isso a deu a oportunidade de obter informações inéditas. Fatos relacionados com presidentes como Juscelino Kubitschek e Tancredo Neves são contextualizados no livro e muitos deles desmistificados. Nuances do relacionamento de Dom Damasceno com esses presidentes e com os três papas com quem ele teve contato: João Paulo II, Bento XVI e Papa Francisco são expostos na obra, além da sua participação em um conclave.

Dom Raymundo tem grande importância para a história da Igreja Católica, não apenas brasileira, como latinoamericana. Foi presidente da Confederação dos Bispos do Brasil (CNBB) e  membro da Comissão Episcopal do Departamento de Catequese do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), entre outras atribuições importantes. Porém, Sêda destaca sua humildade e fé, características que, segundo ela, o fazem uma pessoa extremamente alegre, apesar das adversidades pelas quais já passou na vida. Nascido em uma família extremamente humilde, quando iniciou seus estudos eclesiásticos na Itália, ainda seminarista; esteve também por um tempo vivendo na Alemanha, já tendo terminado seus estudos, porém ainda não havia recebido a ordenação. Na Alemanha chegou a trabalhar como metalúrgico em uma fábrica de automóveis, entregador de jornais, trabalhou em hospital, trabalhou na lavoura na França. Foi, inclusive, nesse período que conheceu um professor de Teologia chamado Joseph Aloisius Ratzinger, que viria a se tornar o Papa Bento XVI.

Sêda afirma não ser mais a mesma pessoa de antes de começar a produzir esse trabalho. Autora das biografias de Cora Coralina, Franz de Castro Holzwarth e Nhá Chica, se sentiu desafiada quando recebeu o convite de Dom Damasceno para escrever sua biografia. “Escrever uma biografia de alguém que está vivo e que possa me ajudar será uma superação”, pensou. Seria uma experiência nova, quando receberia o auxílio e o aval do biografado. Após uma tarde de conversa com o religioso, quando ele narrou sua vida, a autora aceitou o convite de imediato e partiu para a missão de escrever aquela vida cheia de fatos interessantes e inusitados. A extensão do livro a preocupou, já que chegou a ter mais de mil páginas. Após muito trabalho, conseguiu reduzi-lo às 896 páginas.

Apesar da extensão do trabalho, depois de pronto, uma passagem foi acrescentada na última hora. Após receber uma homenagem do prefeito de Conselheiro Lafaiete, uma réplica do chafariz que encontra-se em frente à igreja da cidade, o cardeal mostrou-se extremamente alegre e satisfeito. A autora julgou que aquele momento não poderia ficar de fora do relato e decidiu junto a ele que aquele fato encerraria o trabalho. Pesquisou sobre toda a simbologia do chafariz e da água e a história do próprio chafariz da cidade de Lafaiete.

O lançamento de “Viver na Alegria do Senhor – Dom Raymundo Cardeal Damasceno Assis” será dia 22 de dezembro às 18h30 no Centro Cultural Maria Rezende, no Museu Ferroviário na avenida Marechal Floriano Peixoto, S/N, Centro. Na ocasião, Dom Damasceno receberá duas condecorações da Academia de Ciências e Letras de Conselheiro Lafayette (ACLCL); de acadêmico honorário e o Diploma da Ordem dos Construtores do Progresso de Conselheiro Lafaiete. A ocasião será também uma sessão solene da ACLCL, onde se encerrará o ano acadêmico de 2018.

Postado em 19 de dezembro de 2018

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