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Esvaziamento de pauta: quando o conceito ajuda e quando ele atrapalha o debate
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Dentro do BBB, um participante acusou outro de uma conduta discriminatória. Antes que o mérito da acusação fosse discutido, parte da internet já havia chegado a uma conclusão. Não era uma denúncia genuína. Era esvaziamento de pauta.

A historiadora e comunicadora Lívia Teodoro, especialista em pautas de raça, gênero e sexualidade, define o conceito de esvaziamento de pauta como o momento em que debates sociais importantes são utilizados com o intuito de autopromoção ou como distração frente a questões genuinamente cruciais.

O problema começa quando o rótulo é aplicado automaticamente, dependendo de quem está sendo acusado.

Quando o acusado é alguém querido, admirado ou politicamente aliado de quem julga, a denúncia passa a ser suspeita por definição. A pergunta deixa de ser “o que aconteceu” e passa a ser “por que essa pessoa está falando isso agora”.

O conteúdo da acusação sai do centro. A intenção de quem acusa ocupa o lugar.

O jornalista Felipe Ruffino, do portal Alma Preta, alerta que o esvaziamento é especialmente prejudicial quando temas sensíveis como direitos humanos e causas sociais são reduzidos a tendências ou usados apenas como estratégias de engajamento. Mas há uma diferença importante entre identificar esse fenômeno com critério e usá-lo como escudo.

Usar gênero, sexualidade e raça como forma de desautorizar quem denuncia, distorcendo conceitos, é fruto da dinâmica das redes sociais, onde criar controvérsias oportunas garante visibilidade. Esse diagnóstico, feito por pesquisadores que estudam o tema, vale para os dois lados do debate.

A escritora e filósofa Djamila Ribeiro, no livro O que é lugar de fala?, já apontava o risco do esvaziamento conceitual quando termos do debate sobre direitos são usados sem embasamento, perdendo sua dimensão coletiva e seu compromisso com transformação social real.

A consequência mais visível desse uso é o silenciamento.

Quem denuncia passa a precisar provar não apenas que sofreu, mas que não tinha outro motivo para falar. O contexto competitivo, seja um reality show, uma disputa política ou uma discussão pública, é usado para contaminar a denúncia. Se há algo a ganhar com a acusação, a acusação perde credibilidade.

Mas situações discriminatórias acontecem em ambientes de disputa o tempo todo. O fato de haver um interesse envolvido não invalida o que foi vivido.

Lívia Teodoro reforça que permitir que temas caros às minorias sejam cooptados para fins de autopromoção abre espaço para retrocessos significativos e questiona a eficácia de mudanças sociais arduamente conquistadas.

Vale prestar atenção em como e quando esse argumento aparece. E, principalmente, se ele seria usado com a mesma convicção caso o acusado fosse outra pessoa.

Este artigo representa opinião do colunista.

Referências:

Rodolpho Bohrer

Sócio-proprietário e fundador do Mais Minas e jornalista em formação pela Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Redator de cidades, tecnologia e política, além de link builder na Agência MaisPost. Em 2026, foi um dos repórteres vencedores do prêmio estadual "Tributação e Justiça Social", promovido pelo Sindicatos dos Jornalistas Profissionais do Estado da Bahia (SINJORBA).