Os dois lados do rodeio: prática esportiva ou maus-tratos?

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Entre os dias 22 e 25 de agosto, foi realizado no município de Mariana o Viva Mariana Rodeio Show, festival que contou com rodeios, exposição agropecuária, concurso de princesa e rainha do rodeio e diversos shows. O evento teve seu nome alterado, visto que nas edições passadas chamava-se “Expo Mariana”.

O prefeito de Mariana, Duarte Júnior, explicou em entrevista ao Mais Minas que a mudança no nome do evento foi feita para representar a nova fase em que o município está passando, após períodos difíceis na economia local. Entretanto, o acréscimo do termo “rodeio” no nome da festa evidencia a prática esportiva que aconteceu pela primeira vez durante o tradicional evento da cidade.

O rodeio

O rodeio é uma competição antiga, tradicional em muitas cidades do interior. É uma prática cultural que consiste em permanecer por até oito segundos sobre um animal, normalmente um cavalo ou touro. A avaliação competitiva é feita por dois árbitros, sendo que um avalia o competidor e outro avalia o animal, com pontuação de 0 a 100. Sabe-se que esse tipo de competição gera muitas críticas e posicionamentos variados; há quem goste e há quem seja contra as competições na arena.

Além disso, o rodeio também possui um caráter cultural religioso no Brasil. Nossa Senhora Aparecida é padroeira da nação e também dos peões, que fazem orações à santa antes de iniciar as provas na arena. A prática de reverenciar a imagem de Nossa Senhora e a devoção a ela representam força para os competidores, que muitas vezes passam por momentos delicados na hora da montaria.

Peões em momento de fé

Peões em momento de fé, antes do rodeio – Crédito da foto: Maic Costa/Mais Minas

Opinião pública

Comentários no Facebook

Nas redes sociais foi possível encontrar dezenas de críticas a realização dos rodeios – Crédito da imagem: Reprodução/Facebook

Durante os dias do Viva Mariana Rodeio Show, a população marianense e ativistas locais utilizaram as redes sociais para se manifestarem sobre o rodeio. Os internautas usaram a #MarianaSemRodeio para denunciar atos que supostamente acontecem durante as competições, como agressão e exploração dos animais, como consta nos comentários ao lado.

Os comentários rapidamente replicaram nas redes e foram parar em páginas de instituições de defesa aos animais, como o Instituto de Defesa dos Direitos dos Animais (IDDA), que atua em Mariana, entre outras cidades da região dos Inconfidentes.

Por essa discussão, ouvimos pessoas relacionadas com a prática dos rodeios, como o dono da companhia responsável pela apresentação do evento no Viva Mariana, Valdécio Ferreira, e críticos da modalidade, como a ONG IDDA e o vereador da cidade de Mariana, Cristiano Vilas-Boas (PT), que protocolou requerimento contra esse tipo de prática, na Câmara Municipal da Cidade.

Os dois lados do rodeio: prática esportiva ou maus tratos?

Público assiste rodeio, em Mariana – Crédito da foto: Maic Costa/Mais Minas

Durante os quatro dias de evento, as arquibancadas da arena em que aconteceram os rodeios, na Mina Del Rey, ficaram lotadas. Muitas pessoas compraram ingressos para assistirem a todos os dias da competição, mas no entanto, o espetáculo de montaria dos animais não era a atração principal esperada pelos marianenses.

Para o vereador de Mariana, Cristiano Vilas Boas, o rodeio não é essencial para que o público compareça ao evento. Segundo o vereador, exemplo disso são os anos anteriores do evento, em que não teve rodeio e o público foi maior que neste ano. “O rodeio tem público, mas é muito pequeno em relação ao que a cidade pode oferecer em substituição a essa prática”, completou Cristiano.

Bem estar dos animais

Decorrente da opinião pública, o IDDA se pronunciou sobre o caso. Um dia antes do início do evento, a instituição enviou à Câmara Municipal de Mariana uma solicitação constando informações que mostram como os animais são tratados durante as provas. No documento, a ONG explica que os animais utilizados para competir são sencientes, ou seja possuem sentimentos semelhantes aos dos seres humanos, como alegria, tristeza e medo.

Clique aqui e veja, na íntegra, o documento enviado pela ONG IDDA à Câmara de Mariana.

O IDDA também afirma que os instrumentos colocados nos animais nas provas de montaria, como cordas e esporas levam os animais a desenvolverem um comportamento que não é natural das espécies, que resultam nos pulos que estes dão durante as provas. Deste modo, a solicitação complementa que se o comportamento agressivo dos animais fosse natural, não haveria necessidade de usar dos artifícios danosos a eles.

Os dois lados do rodeio: prática esportiva ou maus tratos?

Touro se prepara para entrar em ação no rodeio – Crédito da foto: Maic Costa/Mais Minas

A empresa responsável pela apresentação do rodeio em Mariana foi a Companhia de Rodeio Rancho do Vale, que é referência na organização de rodeios pela região. Segundo o proprietário da Companhia, Valdécio Ferreira, todos os animais da competição são bem tratados. Em entrevista, Valdécio afirmou que “existem críticas de pessoas que não são informadas a respeito do rodeio. Os animais são muito bem cuidados e acompanhados por veterinários. Você pode conferir que não existem maus tratos”. Ele ainda acrescentou que “o touro de rodeio é como um atleta, é cuidado para ser dessa forma. Ele trabalha oito segundos por noite e pesa mil quilos, travando uma luta contra um homem que pesa 50”.

Já a diretora de marketing da empresa, Luíza Guimarães, convidou a todos que queiram conhecer o tratamento dado aos animais e o trabalho realizado na companhia.

Debate na Câmara de Mariana

A solicitação do IDDA foi destinada ao vereador de Mariana, Cristiano Vilas Boas, que prontamente abriu discussões sobre o tema na câmara. Em entrevista ao Mais Minas, Cristiano conta que solicitou a presença da empresa responsável pelo rodeio e da ONG em reunião. “Como o evento já estava em cima da hora, muitas pessoas já haviam comprado o ingresso e não possuímos uma lei no município que proíbe o rodeio, como acontece em algumas cidades, pensamos em fazer ao menos essa discussão”, comentou o vereador.

Segundo o vereador, a empresa não compareceu a reunião na Câmara e não deu justificativa oficial. Entretanto, a resposta não-oficial é que a reunião foi marcada em cima da hora e eles já estavam produzindo a montagem da estrutura do rodeio.

Sobre os benefícios que o evento traz a cidade de Mariana, o vereador esclareceu que prefere que o evento e os shows continuem nos próximos anos, mas nos moldes de antigamente, quando não havia a prática do rodeio. “Sou a favor de voltar o modelo anterior e continuar o evento, que é uma parceria com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais e já foi feito em parceria com o Sindicato dos Produtores Rurais. Sabemos que é o homem do campo que é importante para o município”. Sendo assim, Cristiano lembrou também que a festa movimenta a economia local e traz desenvolvimento.

Legislação e diálogo

Cristiano ressalta que continuará tentando avançar na legislação, mesmo com muita resistência dentro da Câmara Municipal. “Sabemos que lá tem muitos vereadores que são a favor (do rodeio) e são representantes da área rural marianense, é um tema bem complicado para debater, mas vamos tentar avançar nisso”, disse. O vereador acredita que antes de tentar aprovar a lei, deve-se ter um debate mais amplo para facilitar a aprovação. Segundo ele, a lei seria empregada a todo o município, assim como nos distritos. Na comunidade de Monsenhor Horta, é muito comum a realização dos rodeios, portanto, para o vereador, a dificuldade é de convencer os vereadores que representam essa e outras comunidades que possuem a tradição.

Por fim, Cristiano também frisou que vários municípios já avançaram nessa pauta, e Mariana deve dar o exemplo. “Esperamos ainda realizar essa reunião, mesmo agora após o evento, para que possamos continuar esse debate e para que tenhamos um posicionamento oficial do legislativo. Queremos fazer isso com bastante diálogo, porque sabemos que devem ser ouvidas todas as partes”, disse. O vereador também observou que outros temas devem ser incluídos no debate, como agricultura familiar, a importância de combater os agrotóxicos e de cultivar alimentos orgânicos.

Os dois lados do rodeio: prática esportiva ou maus tratos?

Animais aguardando sua vez de entrar na arena – Crédito da foto: Maic Costa/Mais Minas

O que a lei diz

A ONG também menciona o artigo 225 da Constituição Federal, que proíbe práticas que submetam os animais a crueldade. Segundo a lei, incube ao poder público proteger a fauna e a flora, vedadas as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade.

Em agosto deste ano, o presidente Jair Bolsonaro assinou um decreto que flexibiliza a legislação sobre regras de rodeios no Brasil. Segundo o decreto, compete ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, como instância central e superior do Sistema Unificado de Atenção à Sanidade Agropecuária, avaliar os protocolos de bem-estar animal elaborados por entidades promotoras de rodeios. Algumas provas que não eram realizadas antes também estão liberadas atualmente, após o decreto.

Reportagem de Kinderlly Brandão e Maic Costa.

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Postado em 3 de setembro de 2019

5 Responses

  1. Em pleno século XXI, era da tecnologia e da informação e esses atrasados ignorantes ainda persistem na hipocrisia e cinismo da “cultura” rodeios não são originários da cultura brasileira e mesmo que o fossem já havia passado da hora de por um fim nesta forma desumana e insana de entretenimento.

  2. Triste pensar que ainda existe otarios igual você qu para se divertir precisa mal tratar os animais, vamos amarrar você e tenho certeza que com bastante medo você pule mais engraçado que os bois!

  3. Só idiota, ignorante e hipócrita é contra o rodeio. Além de empregar muitas pessoas (peões, quem monta as arenas, quem fabrica a roupas dos peões e as cordas dos touros, os locutores, os comentaristas, os DJs, quem cria os touros, os empregados de quem cria os touros, os salva-vidas, etc.) o rodeio também promove, mesmo que sem querer, a proteção dos touros que pulam. Quem estuda um pouco, sabe que todo bovino macho nasce pra morrer nos frigoríficos (bovino macho = gasto = inviável). Os touros de rodeio vivem mais de 8-10 anos e muitos morrem aposentados nas fazendas de seus donos (fora dos rodeios não passariam de 5 anos). Esse pessoal de ONG diz proteger os animais mas preferem que os touros morram nos frigoríficos do que deixar eles pularem 16 segundos por semana. São hipócritas da pior espécie. Preferem ver o bicho morto do que pulando. Sem falar que de 100 touros um média de 5-10 pula. Esses imbecis acham que é só amarrar uma corda no bicho que ele sai pulando. Falta de informação é um câncer na sociedade. Colocam os animais acima das pessoas e esquecem das pessoas que vivem disso. Eu queria topar no debate esses vagabundos de ONGs. Deitaria qualquer um na base da argumentação. Eles vivem de mentiras que carregam por décadas. Bandidos da pior espécie!

  4. Concordo c vc Ricardo! Se os animais tem acompanhamento com veterinários então neste caso não existe maus tratos, eles estão sendo cuidados. A décadas existe o rodeio e se os mesmos não gostam de rodeio simplesmente fikem em casa gente!!

  5. Fico bestificado c estes idiotas q são contra uma brincadeira q tem mais de século de existência, agr eu pergunto :será q estes mesmo não comem carne, nem consomem ovo, pq se comerem carne estaram matando p comer, e se comerem ovo estaram matando uma futura galinha ou galo.

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