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Pedro Peixe | Na festa da ressurreição, o que vimos foi intolerância e desrespeito

Historicamente, Ouro Preto sempre nos surpreende, na semana santa, com lindíssimas exibições religiosas, merecendo destaque as homilias públicas, a cerimônia da Paixão de Cristo e, claro, seus tradicionais tapetes de serragem.

Causa espanto que no meio de tanta reflexão acerca da vida de um homem que optou por viver com os mais pobres, exercendo a humildade e a caridade, existam pessoas que, mesmo se dizendo seguidoras desse aprendizado, façam exatamente o contrário, e pior, justamente durante as festividades da Páscoa.

Pelo segundo ano seguido, autoridades policiais municipais destruíram tapetes de serragem confeccionados por moradores e turistas durante a madrugada do sábado de aleluia, algo assombroso e chocante.

Sob o falso argumento de que eram “proibidas mensagens não religiosas”, o tapete de serragem em homenagem a vereadora Marielle, assassinada de modo brutal a cerca de um ano atrás no Rio de Janeiro e confeccionada por um professor da rede municipal local junto com alguns amigos, foi pisoteado e estragado por integrantes da Guarda Municipal (GM) da cidade.

De modo totalmente arbitrário, e dizendo serem ordens diretas do prefeito (?), o GM ainda zombou da cara dos autores da obra de arte, mostrando como a impunidade e o desrespeito parecem estar cada vez mais presentes na terra dos inconfidentes.

Além da falta de atitude do poder público municipal em se manifestar repudiando tamanha covardia, foi possível, ainda, presenciar nas redes sociais diversos comentários de cunho fascista não só em apoio a ação truculenta do guarda, mas incitando o uso de violência física contra os autores da mensagem.

Um ponto interessante se dá pelo argumento usado para a destruição: “proibidas mensagens não religiosas”. Entretanto, diversos outros tapetes de serragem com mensagens aleatórias foram confeccionados, mas só esse foi alvo da GM. Nem mesmo desenhos sem nexo, como dinossauros ou paisagens foram questionados, somente o que lembrava da vereadora exterminada pela milícia carioca.

Coincidência? Eu duvido. O que vejo é a institucionalização da impunidade e da intolerância, onde alguns brutamontes parecem não terem entendido nada 2019 anos após a tortura e o assassinato de um homem que pregava o amor e o respeito.

Até quando vamos conviver com tamanha hipocrisia, onde aqueles que açoitam são os mesmos que pedem clemência? Provavelmente, se Jesus Cristo estivesse vivo no presente, teria o mesmo destino do tapete em homenagem a Marielle, pois era por defender as minorias e questionar a sociedade que ambos tiveram o mesmo fim, e o mais curioso, pelas mãos (ou pés) dos cidadãos de bem.

Até a próxima.

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