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População de Itabirito convive com medo das barragens

Moradores da cidade souberam, há poucos dias, que podem ser vítimas do rompimento de outras estruturas da Vale.

Milhares de pessoas que viviam tranquilas em Itabirito, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, desfrutando da calma e das belezas naturais da cidade, hoje convivem com o medo diário de que haja rompimento de uma das barragens do complexo minerário de Forquilha 1, 2 e 3, localizado no município de Ouro Preto.

Um acidente ali atingiria em cheio o centro de Itabirito em pouco mais de uma hora, destruindo dezenas de escolas, prefeitura, câmara, moradias e todo o comércio local, num total de mais de seis mil pessoas.

De acordo com vários depoimentos feitos durante audiência da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), na noite desta segunda-feira (15/4/19), somente depois do que aconteceu em Brumadinho, e da ação do Ministério Público estadual, é que a grande maioria da população ficou sabendo que havia barragens na região, cujo rompimento poderia atingir o município.

A coordenadora do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), Maria Júlia Gomes Andrade, citou os relatórios emitidos pela Agência Nacional de Mineração, em março de 2019, que descrevem a situação das três barragens, com risco iminente de rompimento.

A mais comprometida seria Forquilhas 3, mas as outras duas também apresentariam sérios problemas, por já terem sofrido várias intervenções e processos de alteamento nos últimos anos. Todas as três estruturas estão com suas atividades paralisadas hoje, mas isso não diminui o risco, nem tranquiliza as pessoas, visto que a Barragem de Fundão, que rompeu em Brumadinho, no último dia 25 de janeiro, também já estava parada.

Comissão vai pedir mais informações sobre situação em Itabirito

Como há havia feito em reuniões anteriores sobre o assunto, o gerente-executivo da Vale, Marcelo Klein, voltou a afirmar que a elevação da classificação de risco de algumas das barragens da empresa, nos últimos dois meses, não se deve a nenhum problema físico que tenha havido no local, e sim aos parâmetros de segurança que estão sendo revistos e ficando mais rígidos. “Nós imaginávamos que estávamos seguros e descobrimos, da pior forma possível, que não estávamos”, disse o executivo.

Em Itabirito, a população estaria alarmada, comércio e serviços prejudicados. Mas Marcelo Klein disse que apenas 27 pessoas serão removidas preventivamente da zona de risco. Segundo ele, o restante da população está sendo informada e treinada para agir em caso de novo acidente.

Já os moradores disseram que as simulações de evacuação da zona de risco, realizadas este mês, só aumentaram o temor das pessoas, uma vez que as rotas de fuga indicadas pela Vale são insuficientes e equivocadas.

Os presentes à audiência pública também reclamaram da não instalação de sirenes na cidade. O representante da empresa disse que, em caso de rompimento de barragem, a população de Itabirito seria avisada por meio de carros de som.

Ao perceber a insatisfação dos moradores com as respostas dadas pelo representante da empresa, a deputada Beatriz Cerqueira (PT), que presidiu a reunião, pediu às pessoas que não percam a esperança com as discussões. “Infelizmente, foi necessária mais uma tragédia para que começássemos a desnudar o modo de atuação das mineradoras em nosso Estado. A partir de agora, isso tem que mudar”, afirmou.

Ao final da audiência, a deputada leu diversos requerimentos que serão votados na próxima reunião da Comissão de Direitos Humanos, como encaminhamentos e pedidos de providências com relação às demandas apresentadas na noite desta segunda-feira (15).

A deputada pede que sejam dadas informações mais precisas para a população, que os treinamentos sejam mais efetivos e que haja o aprimoramento das rotas de fuga. A comissão também deverá pedir mais detalhes sobre o plano de descomissionamento das três barragens e sobre as garantias de segurança da população local durante essas operações.

Ministério Público acusa Vale de fazer acordos às escondidas

Não só os familiares de vítimas estavam indignados na reunião. O promotor de justiça coordenador de Inclusão e Mobilização Social (CIMOS), do Ministério Público de Minas Gerais, André Sperling, que acompanha as ações de reparação desde o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, em 2015, criticou duramente o acordo feito entre Vale e Defensoria Pública para pagamento de indenizações em Brumadinho.

Na opinião do promotor, a empresa ignorou a ação que corre na 6ª Vara de Fazenda Pública e iniciou processo de acordo de reparação “às escondidas”, com a Defensoria Pública do Estado, fugindo das negociações coletivas e enfraquecendo assim o movimento dos atingidos.

André Sperling orientou os atingidos de Itabirito a ficarem unidos. “Abram os olhos e vejam com quem vocês estão lidando! A Vale só se preocupa com as ações na bolsa! O que fizeram em Mariana, estão fazendo em Brumadinho e vão fazer em Itabirito também!”, disse o promotor.

O gerente-executivo da Vale, Marcelo Klein, afirmou que os valores que estão sendo acordados com as vítimas de Brumadinho são superiores a qualquer valor já pago de indenizações em casos semelhantes, no mundo. Segundo ele, o acordo com a Defensoria Pública foi uma tentativa de agilizar o processo de indenizações. Ele ainda defendeu a empresa dizendo que “nenhum acordo individual assinado impede que aquela pessoa se beneficie de acordos coletivos futuros”.

Sobre a identificação dos corpos, o executivo garante que a empresa gastou 15 milhões de reais em equipamentos e serviços para o Instituto de Criminalística, para acelerar a identificação dos corpos que ainda estão lá.

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ALMG

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