Muito antes das estradas, cidades e fronteiras administrativas, o território que hoje forma Minas Gerais já era ocupado por diferentes povos indígenas. Entre eles estão os Maxakali, que seguem vivendo no estado e preservando formas próprias de organização, linguagem e espiritualidade, mesmo após séculos de transformações.
No cotidiano, porém, o nome mais usado por esse povo não é Maxakali. Entre eles, a autodenominação é Tikmũ’ũn, uma palavra que pode ser entendida como “nós”. O termo revela uma ideia central de pertencimento coletivo, que orienta as relações sociais e a forma como o grupo se reconhece. Já o nome pelo qual são conhecidos fora das comunidades surgiu a partir de registros externos e passou a identificar diferentes grupos que, ao longo do tempo, se aproximaram e formaram alianças.
Hoje, os Tikmũ’ũn vivem principalmente no nordeste de Minas Gerais, em áreas como Água Boa e Pradinho, no município de Bertópolis. Essas terras são pequenas se comparadas ao território que ocupavam no passado, quando circulavam por regiões que iam do Vale do Jequitinhonha ao litoral da Bahia. A redução desse espaço está diretamente ligada ao avanço da ocupação não indígena e aos conflitos que marcaram essa história.
Mesmo com essas mudanças, a língua maxakali segue viva e é o principal meio de comunicação dentro das aldeias. O português aparece em situações específicas, sobretudo em áreas de contato mais antigo, mas não substitui o idioma tradicional. É na língua que estão guardados os conhecimentos, os rituais e as formas de interpretar o mundo.
A vida na comunidade maxakali é organizada em torno de famílias extensas e de lideranças locais. Essas lideranças não atuam apenas na política, mas também na condução dos rituais e na mediação das relações internas. Diferente de estruturas centralizadas, a organização social é mais flexível, permitindo rearranjos conforme as necessidades do grupo.
Os rituais ocupam um lugar central nesse cotidiano. São eles que orientam momentos importantes, como a cura de doenças, a relação com os mortos e a resolução de conflitos. A presença dos espíritos, chamados de yãmiy, faz parte dessa dinâmica e influencia decisões coletivas, reforçando a conexão entre o mundo visível e o espiritual.
Ao mesmo tempo, a realidade enfrentada pelos Maxakali é marcada por desafios que vão além das aldeias. A redução do território, os conflitos históricos com fazendeiros e a dificuldade de inserção em estruturas econômicas externas impactam diretamente as condições de vida. Esses fatores ajudam a explicar problemas sociais recorrentes, como acesso limitado a serviços básicos e situações de vulnerabilidade.
Ainda assim, o modo de vida do povo Tikmũ’ũn não pode ser compreendido apenas a partir dessas dificuldades. A escolha por manter práticas como caça, coleta, produção artesanal e rituais coletivos também representa uma forma de continuidade cultural. Em meio às pressões externas, essas práticas ajudam a preservar vínculos sociais e a sustentar a identidade do grupo.
A história dos Maxakali em Minas Gerais é, ao mesmo tempo, marcada por rupturas e permanências. De um lado, estão os impactos de séculos de contato e transformação. De outro, a capacidade de manter viva uma forma própria de existir, baseada na coletividade, na língua e na relação com o território.
Início do século XX
As cabeceiras do rio Itanhém, último refúgio dos povos Tikmũ’ũn após três séculos de contato intermitente, ainda eram totalmente cobertas por floresta de Mata Atlântica.
Primeiras décadas do século XX
Após a abertura da estrada de ferro Bahia-Minas, uma nova leva de não indígenas ocupa a região e se instala nos locais das atuais cidades de Machacalis, Bertópolis, Santa Helena de Minas e Batinga.
Primeiras décadas do século XX
Temendo a presença dos indígenas em fazendas e vilarejos, moradores locais contratam o chamado “amansador de índios” Joaquim Fagundes.
1920
O governo de Minas anuncia a “doação” de 2 mil hectares para a criação de um posto indígena na área conhecida como Água Boa.
Anos 1920
Joaquim Fagundes passa a vender terras ocupadas pelos Tikmũ’ũn, alegando dívidas do antigo Serviço de Proteção ao Índio por seu trabalho de “pacificação”.
Anos 1920
Fagundes convence a maioria das famílias a segui-lo até Água Preta, atual Itanhém, na Bahia. No local, dezenas morrem em surtos de sarampo, malária e coqueluche.
Anos 1920
Os sobreviventes retornam às margens do rio Umburanas, mas encontram suas terras ocupadas por fazendeiros. Os conflitos se intensificam e Fagundes desaparece da região.
1941
O SPI demarca uma porção de terra em Água Boa, em Santa Helena de Minas, e cria o Posto Indígena Engenheiro Mariano de Oliveira, mas deixa de fora a área do atual Pradinho, em Bertópolis.
1956
Após o assassinato de uma liderança do Pradinho por fazendeiros, o SPI faz nova demarcação, mas mantém o corredor de fazendas que separava Água Boa e Pradinho.
1993
Depois de décadas de reivindicações, com apoio do CIMI e do CEDEFES, a Funai declara nova demarcação unificando os dois territórios.
1999
A retirada dos fazendeiros da área unificada só ocorre anos depois da nova demarcação.
Década de 1990
Mesmo após a unificação, parte do território tradicional fica fora da demarcação. A Mata Atlântica original já havia sido quase toda substituída por capim colonião.
2004
Conflitos entre famílias de Água Boa e Pradinho levam indígenas a deixar a terra demarcada para retomar áreas vizinhas excluídas do processo de demarcação.
2004–2007
Após escalada da violência, estimulada por fazendeiros, a Funai, com apoio da Polícia Federal e por ordem judicial, desloca indígenas para Governador Valadares e depois para Campanário.
2007
O governo federal adquire uma fazenda em Ladainha. As famílias se mudam para a área e criam a Aldeia Verde.
2007
A nova fazenda, porém, não possui curso de água corrente, criando um problema estrutural que se aprofundaria nos anos seguintes.
2007–2020
A população local cresce de cerca de 100 para 400 pessoas, e a Aldeia Verde se torna a de maior concentração populacional entre os Tikmũ’ũn.
2011
A antropóloga Renata Otto Diniz, então servidora da Funai, alerta oficialmente para os problemas ligados ao crescimento populacional e à necessidade de ampliar o território para incluir água corrente.
2014
Novo documento técnico da Funai reafirma a demanda por ampliação da terra e destaca o aumento populacional e a intensificação de disputas internas.
9 de junho de 2018
A Aldeia Verde envia carta pedindo, com urgência, a aquisição de um território que atenda às necessidades do povo Tikmũ’ũn.
2019
Cresce a presença de missionários e pastores neopentecostais em Aldeia Verde. Parte das famílias se converte e passa a rejeitar rituais, pintura corporal e a autoridade dos pajés.
Março de 2020
A pandemia de Covid-19 é declarada pela OMS. O isolamento aprofunda os conflitos internos em Aldeia Verde.
2020
Para apoiar o isolamento dos Tikmũ’ũn, o Ministério Público Federal cria comitês de apoio ao combate à Covid-19 nos municípios onde ficam as aldeias.
Julho de 2020
A atuação dos comitês ajuda a revelar um esquema de exploração de benefícios sociais dos indígenas. Uma operação da Polícia Federal apreende cartões, documentos e prende um suspeito.
Junho de 2020
A falta de rio, a superlotação, os conflitos internos, a exploração de benefícios sociais e a entrada de missionários criam um ambiente insustentável e levam à saída de mais de 100 famílias da Aldeia Verde.
Início de 2021
A nova gestão da Prefeitura de Ladainha não renova o contrato de arrendamento da terra ocupada e deixa de apoiar os indígenas na busca por outra área.
2021
Descobre-se que a aldeia está em área de risco, abaixo de uma pequena central hidrelétrica. Laudo dos bombeiros recomenda evacuação total.
17 de fevereiro de 2021
As 96 famílias da Aldeia Nova em Ladainha são transferidas para outra área alugada no distrito de Concórdia do Mucuri, ainda sem assistência adequada à saúde, sem roças e sem solução definitiva para a falta de terra.
Fonte: Povos Indígenas no Brasil e HÃMHI TERRA VIVA