Um dos templos religiosos mais antigos de Minas Gerais voltou a receber a comunidade. Fechada há anos devido ao avançado estado de deterioração, a Igreja Matriz de São Bartolomeu, localizada no distrito de Ouro Preto, reabriu as portas nesta quarta-feira (8), marcando o fim de um longo período de espera para os moradores do distrito. A restauração completa do espaço foi viabilizada pelo Ministério Público de Minas Gerais (MPMG).
A atuação do Ministério Público começou em 2003, quando o órgão constatou a gravidade da situação do imóvel. Construída em 1721 e tombada pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) desde a década de 1960, a estrutura sofria com a ação do tempo e a falta de manutenção.
Infiltrações e danos estruturais graves na arte e na arquitetura levaram ao fechamento definitivo do templo para celebrações em 2019. Na época, a situação era tão crítica que o Iphan precisou instalar coberturas provisórias para que a chuva e os ventos não destruíssem os forros artísticos. Com pilares de madeira apodrecidos e o risco iminente de um curto-circuito provocar um incêndio, os próprios moradores decidiram desligar totalmente a energia da igreja.
A virada de chave veio por meio do programa Minas para Sempre, do MPMG. Os recursos foram gerenciados pela plataforma Semente — braço do Ministério Público para projetos socioambientais — e as obras executadas pelo Instituto Joaquim Artes e Ofícios. Ao todo, a recuperação da Matriz recebeu um investimento de R$ 7,6 milhões, divididos em três etapas:
- Emergencial (Dezembro/2022): R$ 1,58 milhão para conter infiltrações e garantir a estabilidade do prédio.
- Arquitetônica: R$ 2,78 milhões na recuperação da estrutura física do templo.
- Artística: R$ 3,27 milhões dedicados minuciosamente aos altares, pinturas e imagens sacras.
O retorno das imagens históricas e do patrimônio sagrado
A reabertura da Igreja de São Bartolomeu devolveu à igreja onze imagens sacras do século XVIII, restauradas pela Fundação de Arte de Ouro Preto (Faop). Entre as relíquias que voltaram ao altar está uma escultura de Nossa Senhora do Carmo atribuída a Aleijadinho (Antônio Francisco Lisboa).
Também retornaram ao templo as imagens de São João Nepomuceno, Santa Efigênia, Sant’Ana, Nossa Senhora do Pilar, São Benedito, Nossa Senhora das Candeias, um Crucificado e o Divino Espírito Santo. Outro tesouro preservado foi o raro sino esculpido em madeira, que fica em uma das torres.
Para o promotor Marcelo Maffra, coordenador das Promotorias de Justiça de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico, o impacto da obra vai muito além da engenharia. Ele destaca que o fechamento da Matriz havia privado a comunidade de seu principal ponto de convivência, fé e cultura, e que a restauração devolve aos moradores sua memória e identidade. Durante a cerimônia de reabertura, a emoção tomou conta dos fiéis que não entravam no local há anos.
Dinheiro recuperado do crime vira cultura
Os R$ 7,6 milhões que financiaram a obra são frutos de medidas compensatórias, combate à lavagem de dinheiro e recuperação de impostos sonegados em Minas Gerais. Através do programa Minas para Sempre, essa estratégia já direcionou mais de R$ 68 milhões para resgatar 56 bens culturais em 30 municípios mineiros.







