Na madrugada do Domingo de Páscoa, em Ouro Preto, a cidade se transforma em um cenário de devoção coletiva. Ruas históricas ganham cores, símbolos religiosos e desenhos elaborados que formam um extenso tapete de serragem, preparado para a passagem da procissão com o Santíssimo Sacramento.
A tradição, que neste ano acontece no dia 5 de abril, conecta a Basílica de Nossa Senhora do Pilar ao Santuário de Nossa Senhora da Conceição, em um percurso de aproximadamente dois quilômetros. Logo após a missa das 7h, os fiéis acompanham a procissão sobre os tapetes, marcando uma das celebrações mais simbólicas da Semana Santa em Minas Gerais.
A confecção começa ainda na noite de sábado. A partir das 21h, moradores, turistas e grupos religiosos se reúnem para montar os desenhos no chão, utilizando serragem colorida, flores, areia e outros materiais. Ao longo da madrugada, o trabalho coletivo avança, enquanto apresentações musicais e serestas ajudam a compor o ambiente.
Origem barroca e influência portuguesa
A prática de ornamentar ruas para procissões religiosas foi trazida ao Brasil pelos colonizadores portugueses. Em Ouro Preto, a tradição remonta ao século XVIII, mais precisamente ao ano de 1733, quando a então Vila Rica realizou o chamado Triunfo Eucarístico.
Na ocasião, o Santíssimo Sacramento foi conduzido em uma grande procissão entre igrejas da cidade, em um evento marcado pelo esplendor barroco. Desde então, a ornamentação das ruas passou a fazer parte das celebrações religiosas locais, sendo incorporada de forma contínua ao calendário litúrgico.
Além dos tapetes, outro elemento que permanece ao longo dos séculos é a decoração das janelas com toalhas e tecidos. Esse costume também tem origem portuguesa e era utilizado para enfeitar as casas durante eventos religiosos e visitas oficiais.
Participação popular e dimensão cultural
A produção dos tapetes envolve uma ampla mobilização comunitária. Segundo a Secretaria de Cultura e Turismo, cerca de 15 toneladas de serragem são utilizadas para compor os desenhos, que trazem referências bíblicas e símbolos da fé cristã.
A participação não se limita aos moradores. Visitantes e turistas também integram o processo, contribuindo para a construção coletiva do percurso. O resultado é um trabalho efêmero, que dura poucas horas, mas concentra grande significado simbólico.
Durante a procissão, participam bandas de música, irmandades religiosas com seus trajes tradicionais, além de crianças caracterizadas e grupos que representam passagens bíblicas. O trajeto é acompanhado por fiéis e visitantes, formando um cortejo que percorre o Centro Histórico.
Entre fé, patrimônio e turismo
A tradição dos tapetes devocionais integra o conjunto de manifestações culturais que fazem de Ouro Preto um dos principais destinos do país durante a Semana Santa. O evento reúne elementos religiosos, históricos e turísticos, mantendo práticas que atravessam gerações.
A preparação coletiva, o caráter simbólico e a ocupação das ruas reforçam a relação entre comunidade e patrimônio. Ao mesmo tempo, a celebração atrai visitantes de diferentes regiões, ampliando o fluxo turístico no período.
Ao final da procissão, uma nova celebração é realizada no Santuário de Nossa Senhora da Conceição, encerrando o percurso com bênção e participação dos fiéis.







