Em setembro de 1968, Pablo Neruda passou por Ouro Preto durante uma viagem pelo Brasil. Em parte do percurso por Minas Gerais, esteve acompanhado de Vinicius de Moraes. O chileno tinha 64 anos e já era um dos grandes nomes da literatura latino-americana. O Nobel de Literatura viria três anos depois, em 1971.

A viagem por Minas Gerais passou por Belo Horizonte, Ouro Preto e Congonhas. A própria Fundação Pablo Neruda registra, na biografia do escritor, que ele percorreu o Brasil naquele período e mais tarde escreveu sobre parte do roteiro. Vinicius também registrou lembranças daquela viagem em História natural de Pablo Neruda: A elegia que vem de longe, publicado em 1974. A obra traz, inclusive, capítulos intitulados “Visita a Ouro Preto” e “Peregrinação a Congonhas”.
Na biografia de Neruda, a Fundação registra:
“Fines de agosto: inicia un viaje por Brasil. Su itinerario incluye: San Pablo, Belo Horizonte, Congonhas, Petrópolis, Ouro Preto, Salvador de Bahía y Brasilia. En uno de sus artículos de la serie “Reflexiones desde Isla Negra”, Neruda relata el viaje que hizo por Brasil con Vinicius de Moraes, por Ipanema, Belo Horizonte y Ouro Preto. Neruda da cuenta de la admiración que siente en Congonhas al ver las estatuas del Aleijadinho, “nuestro Miguel Ángel americano”. En su curiosa Historia natural de Pablo Neruda, Vinicius recuerda también esta visita a Congonhas”.
Ao recuperar textos do escritor sobre suas viagens pelo Brasil, a pesquisadora Cristiane Grando, no ensaio Los colores del Brasil en Pablo Neruda, escrito originalmente em 2004 e republicado pela Fundação Pablo Neruda, cita a descrição que ele fez de Ouro Preto em Para nacer he nacido. No trecho reproduzido por Grando, Neruda descreve Ouro Preto como “colonial e calcária” e diz que a cidade tinha “o ar mais transparente da América do Sul”.
“De Ipanema, con azul océano, islas y penínsulas, montes jorobados, trepidación circulatoria, Vinícius de Moraes me lleva a Belo Horizonte (inmensa Antofagasta de la meseta), luego a Ouro Preto, colonial y calcárea, con el aire más transparente de América del Sur y una basílica en cada uno de sus diez cerros que se elevan como los dedos de las manos en la reconcentrada mansedumbre». En estos recuerdos publicados en Para nacer he nacido, Neruda deja claro que, además del paisaje montañoso de la tranquila Ouro Preto, también apreció, en Congonhas, las estatuas de «nuestro Miguel Ángel americano», António Francisco Lisboa, o Aleijadinho.”
Na mesma recordação, falou das igrejas erguidas entre os morros. Em Congonhas, ficou impressionado com as esculturas de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, a quem chamou de “nosso Michelangelo americano”.
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Um poema de Pablo Neruda escrito no cardápio em Ouro Preto
Uma história curiosa daquela visita sobreviveu graças a um cardápio.
A professora Regina Przybycien, que lecionou na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e depois na Universidade Federal do Paraná (UFPR), pesquisou o encontro entre as trajetórias de Neruda e da poeta norte-americana Elizabeth Bishop. O resultado está no artigo Elizabeth Bishop e Pablo Neruda: Náusica, Ulisses e os caminhos da poesia, publicado em 2005 pela Revista Letras, da UFPR.
Segundo Przybycien, Elizabeth Bishop não estava em Ouro Preto quando Neruda passou pela cidade. Em 13 de setembro de 1968, o chileno sentou-se no Restaurante Calabouço e escreveu um pequeno poema em inglês no próprio cardápio do estabelecimento. Por baixo dos versos estavam os pratos e preços oferecidos pela casa, entre eles feijão-tropeiro e tutu à mineira.
Przybycien reproduz no artigo o início do bilhete:
“Elizabeth, I found out / you are / a very secret girl / the Nausikaa of Ouro Preto.”
A referência a Náusica vinha da Odisseia. Na obra atribuída a Homero, é ela quem encontra Ulisses depois do naufrágio e o conduz ao palácio de seu pai.
Przybycien observa que Neruda brincava justamente com a ausência da amiga: aquela “Náusica de Ouro Preto” não estava na cidade para recebê-lo. A pesquisadora também chama atenção para o fato de o bilhete ser um dos raros momentos, talvez o único, em que Neruda tentou fazer poesia em inglês.
Uma pesquisa acadêmica desenvolvida posteriormente por Sérgio Parreiras Abritta na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) voltou ao episódio. O trabalho cita o relato de Neruda sobre a passagem pela cidade e recupera a pesquisa de Przybycien sobre o cardápio do Calabouço. Segundo o estudo, Bishop havia comprado uma casa do século XIX em Ouro Preto em 1965, mas só se mudou definitivamente para o imóvel em 1969, depois da restauração. Na época da visita de Neruda, ela estava em São Francisco, nos Estados Unidos.
Vinicius também escreveu sobre aqueles dias
Vinicius de Moraes voltou à viagem depois da morte do amigo.
Neruda morreu em setembro de 1973. No ano seguinte, Vinicius publicou História natural de Pablo Neruda: A elegia que vem de longe, livro construído a partir das memórias da amizade entre os dois.
A obra dedica partes específicas à passagem por Minas. No índice aparecem, em sequência, “Viagem gastronômica a Belo Horizonte”, “Visita a Ouro Preto” e “Peregrinação a Congonhas”.
A primeira edição, publicada pelas Edições Macunaíma, em Salvador, teve apenas 300 exemplares e contou com xilogravuras de Calasans Neto. O livro mistura episódios de viagens, festas, jantares e encontros que Vinicius viveu ao lado do chileno nas décadas de 1940 e 1960.
A amizade dos dois já vinha de muitos anos. Quando Neruda voltou ao Brasil em 1968, Vinicius foi seu companheiro em parte da viagem, incluindo o percurso por Minas Gerais.
Neruda também se encantou com Aleijadinho em Congonhas
Além de Ouro Preto, Neruda também conheceu Congonhas. Diante dos Profetas, demonstrou admiração pela obra de Antônio Francisco Lisboa e chamou Aleijadinho de “nosso Michelangelo americano”, segundo registro da Fundação Pablo Neruda.
Vinicius estava com ele e também escreveu sobre essa etapa. A visita a Congonhas ganhou um capítulo próprio em História natural de Pablo Neruda.
A viagem continuaria por outros pontos do país. A biografia mantida pela Fundação Pablo Neruda inclui São Paulo, Belo Horizonte, Congonhas, Petrópolis, Ouro Preto, Salvador e Brasília no itinerário brasileiro daquele período.
Ouro Preto reapareceria nos escritos de Neruda com seus morros, igrejas e a descrição do que chamou de “o ar mais transparente da América do Sul”. Da passagem pela cidade também ficou o registro de 13 de setembro de 1968: um poema em inglês escrito para Elizabeth Bishop sobre o cardápio do Restaurante Calabouço, entre os nomes e preços de pratos da culinária mineira.
Três anos depois da viagem, em 1971, Pablo Neruda recebeu o Nobel de Literatura.
Referências
- FUNDAÇÃO PABLO NERUDA. Biografía Pablo Neruda. Fundação Pablo Neruda. Biografia de Pablo Neruda
- GRANDO, Cristiane. Los colores del Brasil en Pablo Neruda. Texto escrito originalmente em 2004 e republicado pela Fundação Pablo Neruda em 2022. Los colores del Brasil en Pablo Neruda
- MORAES, Vinicius de. História natural de Pablo Neruda: A elegia que vem de longe. Salvador: Edições Macunaíma, 1974. Página da obra no acervo oficial de Vinicius de Moraes
- NERUDA, Pablo. Para nacer he nacido. Obra póstuma que reúne textos do escritor e contém o relato sobre a passagem por Minas Gerais citado na pesquisa de Cristiane Grando.
- PRZYBYCIEN, Regina. Elizabeth Bishop e Pablo Neruda: Náusica, Ulisses e os caminhos da poesia. Revista Letras, Universidade Federal do Paraná (UFPR), 2005. Artigo na Revista Letras da UFPR
- ABRITTA, Sérgio Parreiras. Pesquisa acadêmica da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), consultada para informações relacionadas a Elizabeth Bishop, sua residência em Ouro Preto e o episódio do cardápio. Documento no Repositório Institucional da UFMG










