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Em agosto de 1761, uma procissão percorreu as ruas de Vila Rica, hoje Ouro Preto, com hábitos fechados, capas, capuz e um cordão mais grosso do que o dos frades. Eram os homens pardos da Arquiconfraria do Cordão, recém-fundada na Igreja de São José. Naquela mesma noite, depois de ganhar na justiça a disputa pelo direito de usar os símbolos franciscanos, foram à casa do Procurador Geral da Ordem Terceira com violas, pandeiros e adufes. Ficaram lá a zombar quanto quiseram. A história está registrada no livro São Francisco de Assis de Ouro Preto, do Cônego Raimundo Trindade, publicado em 1951 pelo então Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, e permanece praticamente desconhecida.

Igreja de São José
Igreja de São José, por Luiz Roberto Krauss – Obra do próprio, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=72667511

A Ordem Terceira de São Francisco não achou graça nenhuma.

Quem eram os pardos do Cordão

A Arquiconfraria do Cordão era uma irmandade religiosa franciscana, canonicamente legítima, fundada em todo o bispado de Mariana por volta de 1760. Em Vila Rica, seus membros eram exclusivamente pardos, filhos de brancos com negros no Brasil colonial.

A irmandade tinha respaldo papal. O Papa Xisto V havia fundado a Arquiconfraria do Cordão no século XVI, com sede na Basílica de Assis, e autorizado sua criação em qualquer parte do mundo católico. Os pardos de Vila Rica tinham pleno direito de usar as insígnias franciscanas: a cruz, as armas do Santo Patriarca e o cordão com três nós.

A Ordem Terceira de São Francisco de Vila Rica, formada pela elite branca da capitania, não tolerava dividir esses símbolos com “uns audaciosos mulatos“. A expressão consta literalmente dos documentos da época transcritos por Trindade.

A petição e o processo

Dias depois da primeira procissão dos pardos, a Ordem Terceira entrou com uma ação judicial. A petição inicial alegava que os pardos estariam “perturbando as regalias da Ordem” e tentando “usurpar a posse pacífica” dos símbolos franciscanos, que seriam privativos dos Terceiros brancos.

Os pardos foram citados em 4 de agosto de 1761. No arquivo da Igreja de São Francisco não existe um único documento de defesa produzido por eles, apenas os registros dos seus adversários. Mesmo assim, o Ouvidor Geral e Corregedor da Comarca decidiu a seu favor. A sentença foi objetiva: os Terceiros brancos não podiam alegar monopólio sobre símbolos que pertenciam a toda a família franciscana.

A Ordem Terceira apelou. A Relação do Rio de Janeiro reverteu parte da decisão. Os pardos agravaram para a Casa da Suplicação, em Lisboa. O processo se arrastou por mais de quinze anos, com procuradores em Portugal, cartas ao Ministro Geral da Ordem em Roma e registros que revelam articulação velada junto a desembargadores.

O que as cartas internas revelam

A correspondência interna da Ordem Terceira, transcrita por Trindade, é reveladora. O Provincial franciscano escrevia a Lisboa pedindo que o caso dos pardos “caísse na mão” de desembargadores amigos. Um deles, descrito como “o Sr. Chanceler, muito meu amigo”, prometia despachar o caso favoravelmente, pedindo paciência por ter muito trabalho com os padres da Companhia de Jesus, então perseguidos pela Coroa.

A linguagem das cartas não é de quem confia na justiça. É de quem trabalha para contorná-la.

A própria Mesa da Ordem Terceira, em carta de 1772, descrevia as mulheres pardas com desprezo explícito: “andando as pardas meretrizes com toda a basófia e cordão grosso, sem diferença das brancas bem procedidas.” O que incomodava não era teológico. Era a visibilidade pública de pessoas negras ocupando o mesmo espaço simbólico que a elite colonial considerava exclusivo.

Vila Rica perdeu. Mariana, não.

Em Vila Rica, a irmandade dos pardos foi derrotada e desapareceu. A última menção à Arquiconfraria do Cordão no arquivo da Ordem data de 1777, uma carta instruindo o procurador em Lisboa a só agir caso os pardos retomassem o processo. Depois disso, silêncio completo.

Em Mariana, o resultado foi outro. Os pardos venceram a disputa, ergueram sua própria igreja dedicada a Nossa Senhora dos Anjos, e a Arquiconfraria permaneceu em atividade até pelo menos meados do século XX, quando Trindade escrevia.

Capela de Nossa Senhora dos Anjos da Arquiconfraria do Cordão de São Francisco – Crédito: Arquivo/Mais Minas

O que restou

A Igreja de Nossa Senhora dos Anjos, em Mariana, é o registro físico de uma vitória que em Vila Rica foi inviabilizada. A poucos quilômetros de distância, o mesmo conflito produziu resultados distintos.

O registro dessa disputa sobreviveu porque o Cônego Trindade dedicou décadas a copiar documentos antes que o tempo os destruísse. O conflito em si, essa guerra religiosa travada com violas, pandeiros, petições judiciais e cartas a Lisboa, ficou guardado por quase três séculos em um livro de 536 páginas publicado pelo governo federal e praticamente esquecido.

Rodolpho Bohrer

Sócio-proprietário e fundador do Mais Minas e jornalista em formação pela Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Redator de cidades, tecnologia e política, além de link builder na Agência MaisPost. Em 2026, foi um dos repórteres vencedores do prêmio estadual "Tributação e Justiça Social", promovido pelo Sindicatos dos Jornalistas Profissionais do Estado da Bahia (SINJORBA).