Poucos escritores brasileiros incomodam tanto quanto Lima Barreto. Mas é justamente nesse incômodo que reside sua maior virtude. Na obra “Os melhores contos de Lima Barreto”, lançada em 2021, pela editora Martin Claret, o leitor encontra uma literatura que funciona como um espelho, refletindo desconfortavelmente um Brasil marcado pela desigualdade, pela vaidade intelectual e pelo racismo.
Nos contos que compõem a obra, Lima Barreto constrói cenas que giram em torno de funcionários públicos frustrados, intelectuais à margem e sujeitos esmagados pela burocracia, pelo preconceito e por um sistema que promete muito e entrega pouco. A escrita é direta, irônica na medida certa e frequentemente melancólica.
Dentre os contos reunidos, alguns se destacam com mais força, pelo impacto e pelo retrato que oferecem da sociedade brasileira. “O homem que sabia javanês”, meu prefeito, é uma exposição do prestígio vazio do falso saber e da facilidade com que a sociedade reverencia aparências. Possui um tom mais cotidiano nas histórias. Já “A nova Califórnia” é um conto curto que aborda a ganância humana. A trama explora o dilema humano quando ambições e objetivos pessoais colidem frontalmente com a ética e os laços afetivos.
“O filho da Gabriela”, último da coletânea, por sua vez, oferece uma narrativa sensível e amarga sobre abandono, preconceito e herança social, refletindo um sistema que condena antes mesmo de oferecer escolha. Em “Um especialista”, Lima Barreto faz uma crítica direta à burocracia, ao funcionalismo e à obsessão por títulos e cargos. Por fim, em “Uma noite no lírico”, o narrador nos conduz por uma noite de ópera, mas o foco não é a música ou o talento dos artistas, e sim o espetáculo das aparências que ocorre na plateia e nos camarotes.
Para além dessas escolhas pessoais, é fundamental destacar que o livro se sustenta pela força dos grandes temas que atravessam toda a coletânea. Ainda que dialoguem com o início do século XX, as histórias parecem incrivelmente escritas para o agora. Esta edição é ideal tanto para quem está descobrindo o autor quanto para quem deseja reencontrá-lo. Lima Barreto não escreve para agradar, escreve para despertar. E esse despertar começa já na primeira página.







