O Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, receberá no próximo dia 15 de maio duas esculturas históricas de santos negros que passarão a integrar o acervo permanente da instituição. A cerimônia de entrega das imagens de São Benedito e do Rei Mago Baltazar será realizada às 17h e marca uma ação voltada à valorização da presença afrodescendente na formação histórica e artística de Minas Gerais.
As obras foram incorporadas ao museu por meio do Movimento de Aquisição de Obras para Museus Brasileiros, iniciativa coordenada pelo Instituto de Pesquisa e Promoção à Arte e Cultura (IPAC), com apoio da CAIXA Residencial. Segundo os organizadores, a proposta busca ampliar e diversificar os acervos públicos brasileiros a partir de políticas voltadas à representatividade histórica e cultural.
As esculturas ficarão em exposição gratuita até 30 de julho de 2026, ao lado de obras contemporâneas das artistas Jeane Terra e Thaïs Helt, que abordam temas ligados à memória, colonialismo e identidade negra.
O que representam as esculturas incorporadas ao museu?
As imagens de São Benedito e do Rei Baltazar são consideradas representações históricas importantes da religiosidade negra no período colonial brasileiro.
Segundo o material divulgado pelos organizadores, a devoção a santos negros funcionou também como forma de afirmação identitária de populações negras escravizadas no Brasil colonial. A presença dessas figuras nas irmandades religiosas permitiu a preservação de vínculos culturais e simbólicos em meio à estrutura escravista da época.
São Benedito é associado às irmandades do Rosário e tornou-se símbolo de humildade, resistência e devoção popular. Já Baltazar, tradicionalmente representado como um dos Reis Magos, aparece como figura ligada à diversidade dos povos dentro da tradição cristã.
Como são as peças históricas?
A escultura de São Benedito possui 87 centímetros de altura e foi produzida em madeira policromada na técnica de talha inteira. A peça retrata um homem negro de porte robusto, com vestes em dobras verticais profundas e base oitavada com pintura marmorizada.
Já a imagem do Rei Baltazar mede 69 centímetros de altura por 32 centímetros de largura. Produzida em madeira policromada e dourada, a obra representa Baltazar em vestes inspiradas nas iconografias cristãs medievais e barrocas, apoiado sobre peanha sextavada.
Segundo os organizadores, a peça provavelmente fazia parte de um conjunto escultórico maior originalmente.
O que dizem os responsáveis pelo projeto?
A diretora do IPAC e coordenadora do Movimento de Aquisição de Obras para Museus Brasileiros, Daiana Castilho Dias, afirmou que a incorporação das obras representa também uma revisão simbólica das narrativas históricas presentes nos museus brasileiros.
“A incorporação das imagens dos santos pretos ao acervo do Museu da Inconfidência não se limita a um gesto de aquisição patrimonial. Trata-se de um movimento curatorial que reposiciona o olhar, desloca narrativas e reinscreve, no centro da história, corpos que durante séculos foram mantidos à margem da representação”, declarou.
O diretor do Museu da Inconfidência, Alex Calheiros de Moura, afirmou que a presença da população africana e afrodescendente é parte constitutiva da história de Ouro Preto e de Minas Gerais.
Segundo ele, a chegada das esculturas e das obras contemporâneas reforça o compromisso da instituição em ampliar os sujeitos representados em suas exposições.
Programação inclui bate-papo e participação do Congado
A abertura da exposição contará com participação de representantes do Congado de Nossa Senhora do Rosário, manifestação tradicional ligada à religiosidade afro-brasileira.
Após a cerimônia, será realizado um bate-papo com o pesquisador Fábio Zarattini, doutor em Artes pela UFMG. O encontro discutirá políticas de aquisição para museus brasileiros, formação de acervos e os significados históricos e sociais das obras incorporadas ao museu.
Serviço
Movimento de Aquisição de Obras para Museus Brasileiros
Local: Museu da Inconfidência
Endereço: Praça Tiradentes, 139, Centro Histórico, Ouro Preto
Abertura: 15 de maio de 2026, às 17h
Visitação: até 30 de julho de 2026
Entrada gratuita







