A descoberta de inscrições e desenhos ligados ao período da escravidão em um casarão colonial no centro histórico de Ouro Preto abriu uma nova frente de pesquisas sobre a presença africana no Brasil colonial. O caso foi noticiado inicialmente pelo portal Metrópoles e envolve um conjunto de grafismos preservados no porão de um sobrado de aproximadamente 260 anos, localizado na Rua Conde de Bobadela, conhecida como Rua Direita, uma das vias mais antigas da cidade histórica.
Os registros foram encontrados durante obras de restauração iniciadas em 2017. O espaço subterrâneo, de difícil acesso, possui pé-direito baixo, ausência de ventilação e permaneceu sem energia elétrica até a década de 1980. Segundo pesquisadores, essas condições contribuíram diretamente para a preservação das imagens ao longo dos séculos.
Os estudos vêm sendo conduzidos por especialistas ligados à Universidade Federal de Minas Gerais. Um dos pesquisadores responsáveis é o historiador e arqueólogo Leonardo Klink, que desenvolve investigação sobre o imóvel em um projeto de doutorado. Segundo ele, o conjunto identificado apresenta características consideradas incomuns até mesmo em pesquisas internacionais sobre a diáspora africana.
O que foi encontrado no casarão?

Os pesquisadores identificaram cerca de 26 inscrições e desenhos feitos com técnicas variadas. Há riscos gravados diretamente na parede, pigmentos escuros e avermelhados, além de sobreposições de materiais e traços. Parte das imagens só pôde ser visualizada com iluminação especial e tratamento digital, devido ao desgaste natural causado pelo tempo.
Entre os elementos reconhecidos estão figuras humanas, aves, embarcações, símbolos geométricos, vegetação e animais que lembram felinos africanos, como leopardos ou guepardos. Também foram identificadas representações que podem estar ligadas a práticas culturais e religiosas africanas.

Um dos desenhos analisados mostra pessoas em um espaço cercado por muros e torres. Segundo Klink, estruturas semelhantes foram localizadas em referências históricas do interior da África Ocidental. Outra imagem considerada relevante é uma espécie de máscara produzida em grafite e fibras, associada visualmente a tradições da África Centro-Ocidental.
Há ainda um terceiro registro que intriga os pesquisadores. A figura mistura características humanas e animais, com chifres e dentes pontiagudos. A interpretação permanece indefinida.
Por que a descoberta é considerada rara?

Segundo os especialistas envolvidos, ainda não existe registro conhecido de um conjunto semelhante em contexto urbano preservado dessa maneira no Brasil ou em outros países.
A singularidade não está apenas nos desenhos, mas também no modo como foram produzidos. Os pesquisadores afirmam que a própria argamassa utilizada na parede parece ter sido preparada especificamente para receber as inscrições. Além disso, a variedade de técnicas e estilos sugere um processo colaborativo realizado ao longo do tempo por diferentes pessoas submetidas à escravidão.
Os estudos apontam que os autores podem ter vivido no imóvel entre a segunda metade do século XVIII e as primeiras décadas do século XIX, período em que dezenas de africanos e descendentes escravizados circularam pela antiga Vila Rica.
O pesquisador destaca que esses indivíduos desempenhavam funções domésticas e trabalhos pesados, mas também mantinham vínculos sociais, memórias, práticas culturais e formas próprias de expressão.
O que a descoberta pode revelar sobre Ouro Preto?
A descoberta também reacende debates sobre a própria formação histórica de Ouro Preto. Para os pesquisadores, o achado ajuda a deslocar o olhar tradicional centrado apenas na arquitetura barroca, na mineração e nas elites coloniais.
O estudo sugere que espaços subterrâneos de casarões históricos podem ter sido mais complexos do que a classificação simplificada de “senzalas urbanas” frequentemente utilizada em narrativas históricas e turísticas.
Segundo Klink, o ambiente pode ter funcionado também como local de autonomia simbólica, memória, resistência e preservação cultural dentro das limitações impostas pelo sistema escravista.
O pesquisador observa ainda que Minas Gerais recebeu grupos africanos de diferentes regiões ao longo do século XVIII e início do XIX. Os documentos históricos mencionam populações classificadas comercialmente como “mina”, “cabinda”, “congo”, “angola”, “benguela” e “calabar”, categorias usadas pelos traficantes e autoridades coloniais da época.
O imóvel poderá ser visitado?
O casarão ainda não está aberto à visitação pública. O imóvel passa por adequações exigidas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) para garantir a preservação das inscrições.
Um parecer técnico emitido em março de 2026 recomendou a homologação do local como sítio arqueológico denominado “Inscrições Afrodiaspóricas” no Sistema Integrado de Conhecimento e Gestão do Iphan.
Em nota, o instituto afirmou que o conjunto possui relevância nacional por preservar vestígios ligados às práticas culturais, religiosidade e estratégias de resistência de pessoas submetidas à escravidão.
A expectativa dos pesquisadores é que, após as adaptações estruturais e medidas de conservação, o imóvel possa futuramente integrar roteiros de visitação e pesquisa sobre a diáspora africana no Brasil colonial.







