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Quem passa pelo Largo do Carmo, em Ouro Preto, pode não notar nada de extraordinário no casario da rua. A fachada singela, de inspiração neoclássica com elementos barrocos, não se destaca entre as construções vizinhas. Mas é ali que está o Teatro Municipal de Ouro Preto, considerado o teatro mais antigo das Américas ainda em funcionamento, construído em 1769 e em atividade ininterrupta desde então.

Originalmente chamado de Casa da Ópera de Vila Rica, o edifício foi erguido pelo coronel João de Souza Lisboa, contratador dos reais quintos e apaixonado pela arte teatral. A obra custou 16 mil cruzados e contou com o apoio do Conde de Valadares, governador da Capitania, e do poeta Cláudio Manoel da Costa, seu secretário. A construção foi concluída em 1769 e aberta ao público no ano seguinte.

O interior e a atmosfera barroca

Crédito: divulgação/Iphan

O interior do teatro, descrito pelo viajante francês Saint-Hilaire como acanhado, era composto de quatro ordens de camarotes encerrados por balaustradas de madeira recortada. A sala de espetáculos era originalmente iluminada por velas dispostas entre os camarotes, criando uma atmosfera que resistiu ao tempo. O escritor Affonso Ávila, autor de O Teatro em Minas Gerais: Séculos XVIII e XIX, descreveu a sensação de quem visita o espaço como um envolvimento quase físico, um impacto dramático que remete diretamente ao clima barroco de seus primeiros frequentadores.

João de Souza Lisboa foi também pioneiro ao substituir a prática comum da época, em que homens se travestiam para interpretar personagens femininos, por atrizes de verdade. Em carta a um amigo, ele destacou com orgulho que uma das atrizes desempenhava seu papel com, segundo suas palavras, todo o primor, melhor que as do Rio de Janeiro.

Altos, baixos e uma sobrevivência improvável

Casa da Ópera de Ouro Preto — Crédito: Ane Souz/Divulgação

Com a morte de Souza Lisboa, em 1778, a Casa da Ópera entrou em declínio. Ressurgiu oito anos depois, em festas celebradas em honra dos desposórios do infante Dom João, com três noites de ópera e grande público. A partir daí, sob diferentes administradores, o teatro viveu ciclos de esplendor e abandono sem jamais fechar as portas.

Em 1820, o entusiasmo era tão grande que os espetáculos chegaram a ser semanais. O público lotava as galerias e a plateia central enfrentando as ruas íngremes de Ouro Preto para assistir às apresentações. Décadas depois, em 1885, o governo provincial chegou a planejar a demolição do teatro e a construção de um novo edifício mais moderno. O plano nunca saiu do papel. A reforma que se seguiu foi concluída após sete anos e descrita pelos contemporâneos como executada com perfeição e economia.

A chegada do fonógrafo e do cinema no final do século XIX reduziu a frequência nos teatros de todo o país. Ouro Preto não escapou à tendência, mas o Teatro Municipal sobreviveu também a esse capítulo. Com o tempo, o antigo e o novo encontraram seu próprio espaço na vida cultural da cidade.

Atualmente o Teatro Municipal de Ouro Preto realiza apresentações em média três vezes por semana, mantendo vivo o espírito artístico que sustenta sua existência há mais de dois séculos e meio.

Rodolpho Bohrer

Sócio-proprietário e fundador do Mais Minas e jornalista em formação pela Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Redator de cidades, tecnologia e política, além de link builder na Agência MaisPost. Em 2026, foi um dos repórteres vencedores do prêmio estadual "Tributação e Justiça Social", promovido pelo Sindicatos dos Jornalistas Profissionais do Estado da Bahia (SINJORBA).