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Mais de seis décadas após o início do processo de reconhecimento, a Antiga Casa de Ópera de Vila Rica, atual Teatro Municipal de Ouro Preto, recebeu na terça-feira (10) o tombamento federal individual aprovado pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

A decisão encerra uma tramitação iniciada em 1963 e garante ao edifício proteção específica em âmbito nacional. Embora o teatro já estivesse localizado dentro do conjunto arquitetônico e urbanístico de Ouro Preto, tombado pelo Iphan desde 1938, o imóvel agora passa a contar com reconhecimento próprio por seus valores históricos, artísticos, arquitetônicos e culturais.

O tombamento será registrado no Livro do Tombo Histórico e no Livro do Tombo das Belas Artes e abrange o edifício, o terreno e os elementos integrados ao bem.

Um reconhecimento que levou mais de 60 anos

Durante a sessão que aprovou o tombamento, a relatora do processo, conselheira Beatriz Bueno, destacou a longa espera até a conclusão do procedimento.

Segundo ela, o processo atravessou décadas de tramitação sem uma decisão definitiva.

“Trata-se de processo sexagenário, marcado por percursos institucionais sinuosos e por descaminhos evitáveis”, registrou em seu parecer.

Para a conselheira, a aprovação corrige uma lacuna histórica relacionada a um dos mais importantes espaços culturais do país.

Fundada em 1770, a Casa da Ópera é considerada o teatro mais antigo da América Latina em funcionamento contínuo e um dos raros exemplares remanescentes das antigas casas de espetáculo do período colonial brasileiro.

O que muda com o tombamento individual?

Apesar de estar inserido na área histórica de Ouro Preto, o prédio não possuía proteção individualizada. Na prática, isso significa que o valor patrimonial do imóvel passa a ser reconhecido de forma autônoma, independente do conjunto urbano onde está inserido. O tombamento destaca características específicas do teatro e amplia sua relevância dentro da política nacional de preservação do patrimônio cultural.

O parecer aprovado pelo Conselho ressalta que o reconhecimento não tem apenas efeito jurídico.

“O tombamento individualizado não se limita à produção de efeitos jurídicos protetivos. O instituto também reconhece e consagra valores históricos, artísticos e simbólicos de interesse nacional”, destacou a relatora.

Um teatro pioneiro para mulheres e negros

Além da arquitetura e da importância histórica, o processo chama atenção para um aspecto menos conhecido da trajetória da Casa da Ópera.

O parecer destaca que o espaço foi pioneiro na presença de mulheres em cena no Brasil, em uma época em que personagens femininas eram frequentemente interpretadas por homens.

O documento também registra a participação expressiva de artistas negros, pardos, mestiços, livres e escravizados nas atividades culturais desenvolvidas no teatro durante o período colonial.

Segundo o Iphan, essa característica torna a Casa da Ópera um importante objeto de estudo sobre a formação da cultura urbana brasileira e sobre a participação de grupos historicamente invisibilizados na produção artística do século XVIII.

“A expressiva presença de artistas negros e mestiços, livres e escravizados, torna fundamental o estudo da vida urbana colonial e do papel desempenhado pelas casas de ópera na conformação da cena cultural para além do circuito eclesiástico”, registra o parecer.

Patrimônio raro da arquitetura colonial

Inaugurado em 7 de junho de 1770 durante as comemorações do aniversário do rei Dom José I de Portugal, o teatro preserva características consideradas raras da arquitetura teatral luso-brasileira.

Um dos destaques é sua organização interna em forma de lira, solução arquitetônica pouco comum entre os teatros coloniais que chegaram aos dias atuais.

A fachada discreta contrasta com a riqueza do espaço interno, formado por palco italiano, galerias, camarotes e balcões.

Entre os elementos mais valiosos estão o chamado camarote do governador e uma pintura alegórica localizada sobre a boca de cena, apontada por especialistas como possivelmente a mais antiga pintura profana preservada em Minas Gerais.

Mesmo após intervenções realizadas ao longo dos séculos XIX e XX, a estrutura manteve suas características essenciais e segue em funcionamento, recebendo espetáculos e atividades culturais.

Proteção reforçada para um símbolo de Ouro Preto

A proposta aprovada pelo Iphan também estabelece uma área de entorno destinada à preservação da ambiência urbana e da integridade visual do monumento.

A medida reforça a relação da Casa da Ópera com outros bens históricos localizados na mesma região, como a Igreja de Nossa Senhora do Carmo e o Museu da Inconfidência.

Com a decisão, o teatro amplia seu status dentro do patrimônio cultural brasileiro e consolida seu lugar não apenas como um símbolo de Ouro Preto, mas como um dos marcos mais importantes da história das artes cênicas no país.

Elis Bohrer

Amante da música, compositora e formanda em Jornalismo. No Mais Minas é redatora nas editorias de entretenimento, cidades e moda. Também atua como repórter do portal O Noroeste. [email protected]