Um levantamento conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) identificou aumento nas notificações de lesões autoprovocadas registradas no município entre 2022 e 2024. O estudo utilizou dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) e informações da Vigilância Epidemiológica municipal, somando 138 notificações no intervalo analisado.
De acordo com os números consolidados, o total de registros variou ano a ano. Em 2022, foram contabilizadas 38 ocorrências. Em 2023, o número ficou em 37. Já em 2024, houve elevação para 63 notificações, o que levou os autores a apontarem crescimento de 70% no período, com maior concentração no último ano avaliado.
A pesquisa também analisou a distribuição territorial dos registros e apontou maior incidência no bairro Bauxita, região que concentra os campi da UFOP e do Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG). Outras notificações foram registradas em bairros como Antônio Dias e Morro Santana. Para os pesquisadores, a localização dos casos pode estar associada ao contexto universitário presente em Ouro Preto.
O perfil epidemiológico observado no estudo indicou predominância de mulheres pardas, na faixa etária de 20 a 39 anos. Entre os métodos mais recorrentes nas notificações, o mais citado foi o uso de substâncias, classificado como envenenamento ou intoxicação, segundo os dados reunidos.
Além do levantamento sobre o perfil das notificações, os pesquisadores relataram dificuldades relacionadas ao preenchimento das fichas de notificação compulsória. Foram apontadas falhas como campos obrigatórios não preenchidos, erros de classificação, confusão entre termos técnicos, registros ilegíveis e inconsistências em formulários, fatores que, segundo a equipe, prejudicam a leitura do cenário e podem favorecer subnotificações.
Em diálogo com a Secretaria Municipal de Vigilância em Saúde, o estudo mapeou entraves como descumprimento de prazos para notificação, falta de capacitação de profissionais e sobrecarga em unidades de saúde. No âmbito regional e estadual, foram citadas limitações de pessoal, ausência de suporte técnico e dificuldades no uso de sistemas de informação considerados pouco eficientes.
Outro ponto destacado foi a ausência de registros classificados como pessoas pretas ou indígenas, mesmo diante da composição demográfica do município. Para os autores, falhas na variável raça e cor podem comprometer análises mais precisas e dificultar a formulação de políticas públicas voltadas a grupos específicos.
O estudo também contextualiza os dados de Ouro Preto em relação ao cenário nacional. Entre 2011 e 2022, o Brasil apresentou crescimento médio anual nas taxas de suicídio. Em 2023, o Sistema Único de Saúde registrou 11.502 internações por lesões autoprovocadas.
Os pesquisadores ressaltam que a atenção básica tem papel central na identificação precoce de situações de sofrimento psíquico e na qualificação das notificações, o que pode contribuir para a construção de estratégias de prevenção e cuidado em saúde mental no município.
Em casos de sofrimento emocional, a população pode buscar apoio no Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo telefone 188, com atendimento gratuito e disponível 24 horas. Também é possível procurar as Unidades Básicas de Saúde (UBS), os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), pelo número 192.

















