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Casa da Ópera de Ouro Preto é oficialmente reconhecida como Patrimônio Nacional após processo que atravessou mais de seis décadas
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Um processo aberto quando a Casa da Ópera de Ouro Preto ainda não havia completado dois séculos de existência chegou, enfim, à última etapa. Sessenta e três anos depois do início da tramitação no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o teatro recebeu oficialmente o reconhecimento como Patrimônio Nacional.

O Ministério da Cultura publicou, na quarta-feira (19), a Portaria MinC nº 310, de 19 de agosto de 2026, que homologa o tombamento federal individual da antiga Casa da Ópera de Vila Rica, atual Teatro Municipal de Ouro Preto.

A publicação formaliza a decisão que havia sido tomada pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Iphan em junho. Na ocasião, o Mais Minas noticiou a aprovação do tombamento individual da Casa da Ópera, encerrando uma discussão iniciada em 1963. Agora, com a homologação ministerial, o processo avança para o registro definitivo do bem. O Mais Minas noticiou a aprovação do tombamento individual da Casa da Ópera.

O edifício será inscrito no Livro do Tombo Histórico e no Livro do Tombo das Belas Artes, com proteção específica para o teatro, o terreno e os elementos integrados ao imóvel.

De protegido dentro de Ouro Preto a patrimônio reconhecido individualmente

A Casa da Ópera já estava protegida pelo fato de estar inserida no conjunto arquitetônico e urbanístico de Ouro Preto, tombado pelo Iphan em 1938. O que muda agora é que o próprio teatro passa a ter seus valores reconhecidos individualmente em âmbito federal.

Essa distinção foi uma das questões que acompanharam o processo ao longo das décadas. Na análise que antecedeu a aprovação pelo Conselho Consultivo, discutiu-se justamente se seria necessário individualizar a proteção de um edifício localizado dentro de uma cidade que já possuía tombamento federal.

O reconhecimento próprio considera a importância histórica, arquitetônica, artística e cultural do teatro e estabelece uma proteção direcionada às características que fazem da Casa da Ópera um exemplar singular da arquitetura teatral do período colonial brasileiro.

A longa trajetória até o reconhecimento

AnoO que aconteceu
1770Casa da Ópera entra em funcionamento em Vila Rica
1938Conjunto arquitetônico e urbanístico de Ouro Preto é tombado pelo Iphan
1963Começa o processo para o tombamento individual do teatro
10 de junho de 2026Conselho Consultivo do Iphan aprova o tombamento individual
19 de agosto de 2026Ministério da Cultura homologa o tombamento federal

Foram, portanto, 63 anos entre a abertura do processo e sua conclusão em 2026.

A própria relatora do processo no Conselho Consultivo, Beatriz Bueno, chamou atenção para a demora durante a análise realizada em junho.

“Trata-se de processo sexagenário, marcado por percursos institucionais sinuosos e por descaminhos evitáveis”, registrou em seu parecer.

Um teatro que funciona desde o século XVIII

O reconhecimento federal recai sobre um edifício que não permaneceu congelado no passado. Mais de dois séculos e meio depois de sua construção, a Casa da Ópera continua recebendo apresentações e atividades culturais.

Construída por João de Souza Lisboa, a edificação foi inaugurada em junho de 1770, durante as comemorações pelo aniversário do rei Dom José I de Portugal.

O prédio guarda características pouco comuns entre os espaços teatrais coloniais que chegaram ao século XXI.

Externamente, a fachada é marcada pelas paredes espessas de pedra e pelo frontão triangular. O interior, entretanto, revela uma estrutura mais complexa, distribuída em três pavimentos e organizada para comportar plateia, frisas, camarotes e galerias.

A capacidade é de aproximadamente 300 espectadores.

Escadas helicoidais de madeira permitem o acesso aos níveis superiores, enquanto o porão abriga camarins e uma área destinada à recepção de artistas e técnicos.

Mulheres e artistas negros também fazem parte dessa história

O valor reconhecido pelo Iphan não está restrito à arquitetura.

Documentos analisados durante o processo de tombamento revelam aspectos importantes sobre quem ocupava o palco e participava da vida cultural de Vila Rica no século XVIII.

A Casa da Ópera teve participação pioneira de mulheres em cena em um período no qual personagens femininas ainda eram frequentemente representadas por homens.

O parecer do tombamento também chama atenção para a presença de artistas negros, pardos e mestiços, entre pessoas livres e escravizadas, nas atividades desenvolvidas no teatro durante o período colonial.

Esse aspecto amplia o valor histórico do edifício. Mais do que preservar paredes, camarotes e palco, o tombamento ajuda a reconhecer a Casa da Ópera como fonte para compreender as relações sociais e a formação da vida cultural urbana daquele período.

O que torna a Casa da Ópera tão particular?

Entre as características consideradas relevantes no processo estão:

  • funcionamento como espaço cultural desde o século XVIII;
  • organização interna associada ao formato de lira;
  • palco de tradição italiana;
  • galerias, camarotes, frisas e balcões;
  • presença histórica de mulheres nos palcos;
  • participação de artistas negros e mestiços na cena cultural colonial;
  • preservação de elementos arquitetônicos apesar das intervenções realizadas ao longo dos séculos;
  • relação direta com a história cultural de Vila Rica e do Brasil colonial.

Um dos elementos de destaque é o chamado camarote do governador.

O imóvel também conserva uma pintura alegórica sobre a boca de cena, apontada durante o processo como possivelmente uma das mais antigas pinturas profanas preservadas em Minas Gerais.

Alterações ao longo dos séculos não apagaram configuração original

Naturalmente, um edifício utilizado continuamente por mais de 250 anos passou por modificações.

A Casa da Ópera recebeu intervenções, adaptações, estruturas de ferro e trabalhos de restauração. Algumas dessas ações permitiram, inclusive, identificar pinturas e elementos anteriormente encobertos.

A avaliação feita durante o processo de tombamento concluiu, porém, que essas mudanças não descaracterizaram de maneira significativa a configuração original do teatro.

Essa permanência é uma das razões que tornam o imóvel um exemplar raro para o estudo da arquitetura destinada às artes cênicas no período colonial.

Proteção vai além das paredes do teatro

O tombamento individual também considera a relação da Casa da Ópera com o espaço urbano que a cerca.

A proteção prevê uma área de entorno destinada a preservar a ambiência e a integridade visual do monumento, inserido em uma das regiões mais conhecidas do Centro Histórico de Ouro Preto.

Nas proximidades estão outros símbolos da cidade, como a Igreja de Nossa Senhora do Carmo e o Museu da Inconfidência.

Assim, embora o teatro tenha conquistado uma proteção individual, ele continua sendo compreendido dentro da paisagem histórica da antiga Vila Rica.

Da Vila Rica de 1770 ao reconhecimento nacional de 2026

A homologação encerra uma espera institucional de mais de seis décadas, mas acrescenta uma nova camada a uma história muito mais longa.

A Casa da Ópera atravessou o período colonial, o Império, a República, transformações urbanas, restaurações e diferentes momentos das artes brasileiras sem perder sua função original.

Em 2026, 256 anos depois de sua inauguração, o edifício passa a ter formalmente reconhecido, de maneira individual, aquilo que sua permanência no Centro Histórico de Ouro Preto já demonstrava há gerações: seu lugar próprio na história cultural brasileira.

Elis Bohrer

Amante da música, compositora e formanda em Jornalismo. No Mais Minas é redatora nas editorias de entretenimento, cidades e moda. Também atua como repórter do portal O Noroeste. [email protected]