A homenagem prestada ao rapper mineiro Djonga pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais, no dia 11 de maio, foi além do reconhecimento à carreira musical. Durante cerca de sete minutos, o artista transformou o plenário em um espaço de memória, reflexão e crítica social, abordando temas como educação pública, periferia, racismo, violência policial e o papel do Hip-Hop em sua formação.
A cerimônia foi proposta pela deputada estadual Ana Paula Siqueira e reuniu familiares, amigos, artistas e apoiadores do músico. A homenagem destacou sua contribuição para a cultura brasileira e sua atuação em debates ligados à igualdade racial e aos direitos humanos.
Ao longo do discurso, Djonga percorreu diferentes momentos de sua trajetória. Entre eles, a infância na região Leste de Belo Horizonte, o contato com o rap ainda criança, a passagem pela Universidade Federal de Ouro Preto e o reconhecimento nacional conquistado por meio da música.
Como a educação e a universidade aparecem na fala de Djonga?
Embora seja conhecido principalmente por sua carreira artística, Djonga reservou um trecho simbólico da fala para lembrar sua experiência acadêmica.
No encerramento do discurso, o rapper fez referência ao período em que deixou Belo Horizonte para cursar História na UFOP.
“Eu saí de casa para ir fazer o curso de História lá na UFOP e eu não sabia que o último período eu ia continuar fazendo para sempre.”
A frase foi recebida com aplausos e pode ser interpretada como uma referência ao aprendizado contínuo que passou a carregar para além da sala de aula. Ao longo de sua obra, o artista frequentemente aborda questões históricas, raciais e sociais que também dialogam com a formação acadêmica.
A UFOP é uma das universidades federais mais tradicionais do país. Com origem ligada à antiga Escola de Minas, fundada em 1876, a instituição tornou-se um dos principais polos de formação superior de Minas Gerais, recebendo estudantes de diversas regiões do Brasil e com campus em Mariana, Ouro Preto, João Monlevade e Ipatinga.
Nas últimas décadas, universidades públicas como a UFOP ampliaram o acesso ao ensino superior para jovens de diferentes origens sociais, incluindo estudantes das periferias urbanas, cenário semelhante ao retratado por Djonga ao longo de sua trajetória.
O que Djonga disse sobre sua infância?
Um dos momentos mais marcantes da cerimônia ocorreu quando o artista recordou o primeiro contato com o rap.
“Quando eu ouvi meu primeiro disco de rap, eu tinha uns sete anos de idade. Mais ou menos na época que eu tomei a primeira batida da polícia.”
Segundo ele, o álbum era Sobrevivendo no Inferno, dos Racionais MC’s.
“Hoje eu penso que se pá foi por isso que mesmo sem entender nada do que os Racionais falavam naquelas músicas eu sentia que era para mim. O nome do disco era Sobrevivendo no Inferno. Autoexplicativo.”
A fala conecta dois elementos recorrentes em suas músicas: a experiência da juventude negra nas periferias e a identificação com narrativas produzidas por artistas que viveram realidades semelhantes.
Como o Hip-Hop influenciou sua trajetória?
Ao recordar a adolescência em Belo Horizonte, Djonga mencionou grafites espalhados pela cidade, batalhas de MCs e manifestações culturais ligadas ao Hip-Hop.
Segundo ele, esses espaços funcionaram como ambientes de formação e aprendizado.
“Talvez o Hip-Hop também seja sobre isso”, afirmou ao lembrar dos grafiteiros que escalavam prédios da capital mineira para produzir suas obras.
O rapper também relembrou as batalhas de rima realizadas sob o Viaduto Santa Tereza, um dos principais símbolos da cultura Hip-Hop em Belo Horizonte.
“A maior emoção foi quando eu vi os DJs e MCs rimando no palco do viaduto.”
Foi nesse contexto que, segundo ele, teve início um processo pessoal de transformação.
“Ali inclusive eu iniciei meu processo de cura da minha síndrome do pânico.”
Quais críticas sociais foram feitas durante o discurso?
Apesar do tom de agradecimento, Djonga aproveitou a homenagem para abordar problemas que, segundo ele, continuam afetando as periferias brasileiras.
“O Hip-Hop nasceu para ser remédio para a doença que é o descaso do Estado com as populações de baixa renda.”
O artista também citou a violência policial, a fome, os ataques contra mulheres e a população LGBT+.
“Não dá para achar normal a guerra que se vive nas periferias.”
Em seguida, direcionou um recado aos artistas e aos representantes públicos.
“Não vamos esquecer a função disso aqui. Não vamos esquecer por que a gente começou a fazer isso.”
E completou:
“Eu peço inclusive para vocês deputados, representantes de um modo geral, para não esquecer de quem está lá embaixo nunca.”
O que Djonga disse ao receber a homenagem?
Ao encerrar a cerimônia, o rapper relativizou a importância do reconhecimento recebido.
“Eu agradeço, recebo com muito carinho, muito amor essa homenagem aqui. Mas a maior homenagem de todas, não só para mim, mas para qualquer cidadão que se preze, é cuidar de quem precisa.”
A declaração foi seguida por aplausos do público presente.
Discurso completo de Djonga na Assembleia Legislativa de Minas Gerais
É isso aí! Boa noite, gente. Eu sei lá, eu não gosto muito desse negócio, eu fico um pouco com vergonha. Apesar de não parecer, eu sou uma pessoa tímida, mas vou tentar falar aqui e ler inclusive. Vamos lá! Primeiramente, quero agradecer à Ana Paula a homenagem e a todos os representantes que estão nesta Mesa. Quero dizer que, sem Deus, sem meus orixás, nem aqui eu estaria. Eu também não estaria aqui sem a fé da minha avó, sem a criação dos meus pais, sem a minha irmã, sem os meus irmãos do dia a dia, sem a minha quadrilha, sem a minha namorada, sem as mães dos meus filhos. Na moral, sem o Jorge e a Iolanda me deixando doido, depois me deixando orgulhoso, depois me deixando confuso, o que seria de mim? Sem a vibe da minha família, que é família mesmo… Eu nem digo pelos padrões tradicionais e pelas caixinhas que querem nos colocar, até porque, por onde a gente mora, lá na zona leste, há todo tipo de gente. Mas digo família porque nós somos juntos, e mais do que juntos, nós somos felizes juntos, muito felizes. Quero deixar um abraço especial, um salve para quem não cola comigo mais, para os que ficaram pelo caminho, para os que não gostam mais de mim e para aqueles com quem eu não interesse mais de trocar ideia. Não falo isso por humildade, até porque, os meus sentimentos ainda são confusos em relação a várias dessas coisas. O que sei é que, para o mal ou para o bem, eu valorizo tudo o que eu vivi e tudo o que eu vivo. Fiquem felizes. Vocês também fazem parte disso. Um beijo no coração de vocês.
Quando ouvi o meu primeiro disco de rap, eu tinha 7 anos de idade. Foi mais ou menos na época em que eu tomei a primeira batida da polícia. Hoje eu penso que se passei por isso e que mesmo sem entender nada que os racionais falavam naquelas músicas, eu sentia que era para mim. O nome do disco é Sobrevivendo no inferno, autoexplicativo. Quando andava por BH e via os “pixos” nos topos dos prédios, do Goma principalmente, e os grafites nas empenas, eu, que tenho medo de altura, ficava pensando: como essa galera tem coragem de fazer isso? Talvez o hip-hop também seja sobre isto: coragem. Eu vi os b-boys e as b-girls pela primeira vez dançando num filme de que eu não lembro o nome – o pessoal fica lá competindo com o outro e tal – e depois na minha escola, no Iemg, que contribuiu muito para o meu processo de virar gente. Algumas vezes foi duro. A questão é que eu fiquei maravilhado com a beleza dos movimentos de quem transformou o corpo em resistência. A maior emoção foi quando eu vi os DJs e MCs, tipo o Sweet de um lado e a Clara Lima do outro, rimando no palco do viaduto, enquanto o Monge, o PDR, o Ozléo ou alguém da Família de Rua estava xingando a gente por alguma coisa, num processo de educação que a gente nem tinha noção que estava acontecendo ali. Ali, inclusive, iniciei o processo de cura da minha síndrome do pânico, que devo ter desenvolvido de tanto ver coisa ruim ao redor. Esse processo de cura se concluiu no primeiro Duelo de MCs Nacional, ou seja, graças ao hip-hop.
Na real, que bom que existe o hip-hop, porque sem ele eu não ia ter vivido do lado de FBC, Coyote, Oreia, Clara, Hot – todo mundo que formava o nosso bonde do DV –, o André, enfim. Sem ele não existiria “fogo nos racistas”, a frase que mudou minha vida, que deve ter mudado a percepção de muita gente por aí. Sem ele a gente não tinha empregado esse tanto de família por aí. Sem ele nem sei se eu me olharia no espelho e me acharia capaz como eu me acho hoje. O triste é pensar que o hip-hop nasceu para ser remédio para a doença que é o descaso do Estado com as populações de baixa renda, desde antes, com as mulheres e mães solo, principalmente se a pele for preta. O hip-hop foi o caminho que os jovens negros do mundo acharam de denunciar as desigualdades e de se expressar também. Até porque foi através do hip-hop que a gente entendeu o poder que tem quando quem vem de onde a gente vem fala de amor e de coisas leves também, certo?
E, apesar de parecer que já deu tudo certo, a gente ainda está engatinhando. Com todas as minhas contradições, com todos os problemas que eu trago, não posso achar normal a guerra que se vive nas periferias, resultando em 63 mortes de jovens negros por dia. Não dá para achar normal a epidemia de violência contra a mulher, contra a população LGBT, baseada num discurso de ódio que é quase institucionalizado. Não dá para achar normal a fome, a violência policial, o descaso. Por isso, um recado para os meus amigos rappers também: não vamos esquecer a função disso aqui, não. Não vamos esquecer por que a gente começou a fazer isso – e não só nós, não vamos esquecer por que que quem veio antes da gente começou a fazer isso aqui.
Eu peço, inclusive para vocês, deputadas, deputados, nossos representantes de um modo geral, todo mundo que faz parte do Estado, para não se esquecerem de quem está lá embaixo, nunca. Eu agradeço e recebo, com muito carinho e muito amor, esta sua homenagem, mas a maior homenagem de todas, não só para mim, mas para qualquer cidadão que se preze, é cuidar de quem precisa, como se fosse a última coisa da vida de vocês, certo? (– Palmas.) De resto, queria agradecer de novo todo mundo, todo mundo, todo mundo, todas e todos que estão aí, por terem saído das suas casas nesta segunda-feira – vários, com certeza, de ressaca ainda – para vir me ver, para me dar um abraço. Estou muito feliz de estar aqui, de verdade. Estou muito feliz de meus filhos estarem aqui. Eu saí de casa para fazer o curso de história lá na Ufop e não sabia que o último período eu iria continuar fazendo para sempre. É isso. Essa aí é por quem veio antes de mim e me ensinou isso tudo aqui. E fui. Beijo.







