Uma molécula sintética desenvolvida ao longo de mais de duas décadas na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) pode representar um avanço significativo no tratamento de lesões graves na medula espinhal. A polilaminina, criada pela bióloga Tatiana Coelho de Sampaio, mostrou resultados promissores em estudo experimental com pacientes diagnosticados sem perspectiva de recuperação motora: de oito participantes, seis apresentaram melhora parcial dos movimentos e um voltou a andar.
A substância é derivada da laminina, proteína naturalmente produzida pelo organismo durante o desenvolvimento embrionário do sistema nervoso. Em laboratório, a equipe conseguiu estruturar uma versão sintética com maior capacidade de estimular conexões neurais, atuando na reconexão de fibras nervosas rompidas após traumas medulares, situação comum em casos de paraplegia e tetraplegia.
A pesquisa ganhou visibilidade nacional após Tatiana conceder entrevistas a diferentes programas jornalísticos. Em uma delas, ao programa Conversas com Hildgard Angel, da TV 247, a cientista revelou uma curiosidade sobre a estrutura da molécula que acabou dando origem ao apelido pelo qual ela vem sendo conhecida. “Você sabe que a laminina tem forma de cruz, né?”, comentou, em tom descontraído. Ao mostrar a imagem da polilaminina, completou: “São várias de mãozinha dada.” A jornalista Hildgard Angel reagiu com entusiasmo: “É um rosário inteiro. É a proteína de Deus, está resolvido.”

Tatiana reagiu com bom humor, mas demonstrou certo receio com a repercussão da comparação. “Essa é outra que não pode contar para ninguém, porque graças a Deus ainda não saiu isso. No dia que sair, eu estou perdida. Porque aí mesmo que vão dizer que é proteína de Deus”, brincou.

Da pesquisa ao paciente
O tratamento foi desenvolvido em parceria com o laboratório Cristália e prevê que a aplicação ocorra em até 72 horas após o trauma, período definido pela pesquisadora como a “janela terapêutica” para que a substância seja mais eficaz.
O bancário Bruno Drummond de Freitas, primeiro paciente a receber o tratamento experimental com polilaminina, tornou-se o símbolo mais concreto do potencial da pesquisa. Tetraplégico desde 2018, após um acidente de carro que fraturou sua coluna na altura do pescoço, ele perdeu completamente o controle de braços e pernas. “Minhas expectativas estavam muito baixas”, lembrou em entrevista.

O acesso ao medicamento veio por uma coincidência afortunada. Bruno foi internado em um hospital cujos médicos já conheciam o trabalho da doutora Tatiana Sampaio na UFRJ. Eles informaram o tio de Bruno, que também é médico, e ele assumiu o risco de testar a substância experimental no sobrinho.
A recuperação foi gradual, mas consistente. “No primeiro mês, consegui mexer o dedão do pé. Depois, a musculatura da perna voltou a funcionar. E, por fim, os braços. Todo o processo durou aproximadamente um ano”, contou Bruno.
Hoje, reabilitado, ele frequenta a academia e compartilha os treinos nas redes sociais, onde aparece levantando 20 kg e celebrando cada conquista com bom humor. “Agora o negócio começa a pegar!”, comemorou em uma das publicações. Bruno reconhece, no entanto, que ainda convive com algumas sequelas, especialmente dificuldades nos dedos e nos movimentos de puxada, barreiras que segue enfrentando com determinação a cada treino.
Apesar dos resultados animadores, Tatiana é cautelosa quanto às expectativas. A pesquisadora ressaltou que casos crônicos apresentam maior dificuldade de regeneração e que o medicamento ainda está em fase experimental, passando por estudos clínicos junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que avaliará sua segurança e eficácia antes de qualquer liberação para uso amplo.







