Rima em Prosa #1: Edi Rock, do Racionais, fala com exclusividade para o Mais Minas sobre seu novo álbum

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Trinta anos são “uma vida inteira” e ao mesmo são “um sopro”. Trinta anos do Racionais MC’s são também trinta anos de mudança na vida de milhões de pessoas, que cresceram ouvindo as músicas de quatro caras que se tornaram os maiores nomes de uma cultura que, mesmo sendo marginalizada, não parou de crescer e se tornou um dos gêneros musicais mais cultuados no mundo inteiro.

E pra falar de Racionais MC’s, temos que falar de Edi Rock. Um dos maiores letristas da história da música brasileira. Edi ficou conhecido por criar e contar histórias que se encaixam com a realidade de grande parte da população brasileira. Mesmo com tanto tempo de estrada, ele segue na ativa criando novos trabalhos e explorando novas vertentes para sua música. Nessa entrevista exclusiva, o rapper conta detalhes da produção de seu novo disco, suas motivações para seguir vivo na música, o reconhecimento acadêmico do Racionais MC’s e mais. Confira:

Mais Minas entrevista Edi Rock

MM: No ano passado, a Unicamp colocou o álbum “Sobrevivendo no Inferno” como obra obrigatória para a realização do vestibular 2020 da instituição, ação que foi extremamente elogiada e repercutida pelos fãs do grupo e amantes da música brasileira. Como esse reconhecimento acadêmico pode beneficiar o rap e as futuras gerações de ouvintes do gênero?

Edi Rock: O álbum Sobrevivendo no Inferno foi muitas e é muitas coisas, não só pra nós como pra música e pro rap. Ele está entre os melhores 100 álbuns da música brasileira segundo a Rolling Stones, e a mensagem dele é tão atual como a internet. Se for pra comparar, parece que fizemos ele há pouco tempo, não há 20 anos. Com certeza deve ser por isso, além de ser referência musical, é política também!

MM: O seu novo disco, Origens, conta com a participação de artistas do samba, funk, sertanejo e também de outras vertentes do rap. Ao contrário de outros rappers ‘das antigas’, você sempre busca quebrar o padrão e experimentar mais a arte. Por que você acha que o conservadorismo e o preciosismo ainda são tão presentes no rap? O que é preciso para que esses artistas evoluam junto com a arte?

Edi Rock: Na minha opinião, ser conservador é ter medo de perder o controle sobre alguma coisa. Eu penso que inovar é testar novas experiências, é um risco, mas prefiro correr o risco do que ser engessado! Só vejo a cultura ficar mais forte a partir do momento em que eu testo novos caminhos, vejo vida longa para aquilo que canto! Novos caminhos são o segredo, principalmente para não morrer. Novos caminhos trazem novas inspirações e um novo respiro, vejo como um ciclo, depois volta de novo. Não podemos ficar na mesmice, eu tento contribuir com a visão de possibilidades, mostrar que existem várias formas de se fazer, que se pode fazer de outras formas e mantendo a raiz. O rap nunca deixará de ser rap! Essa é a visão, assim como um negro não deixa de ser negro onde quer que ele vá ou qual status alcance.

MM: Esse novo trabalho sai após seis anos do lançamento do disco “Contra Nós Ninguém Será”. Durante esse tempo, o que mudou no seu processo de produção? Depois de tanto tempo, ainda se sente ansioso para lançar um trabalho?

Edi Rock: Não saiu antes por alguns motivos internos, como término de contrato, liberação de gravadora, multa rescisória e etc. Coisas de bastidores, burocracias sem fim. Eu me sinto bem, em forma, como se tivesse 30 anos. Já estou trabalhando no novo projeto, eu quero mais, quero produzir, quero fazer o que eu escolhi como profissão, sou pau pra toda obra! Inspiração não tá faltando, seja solo ou com Racionais, estou a todo vapor! Parece que eu quero recuperar o tempo perdido, 24 horas pra mim tem sido pouco, só penso em trabalho!

MM: Conhecendo bem o rap e a reação do público ouvinte nas mais diversas situações, você consegue produzir sem se preocupar nem um pouco com possíveis polêmicas ou opiniões negativas? Ou essas coisas ainda passam pela sua cabeça?

Edi Rock: Penso em todos os prós e contras. Sempre quando faço as músicas, componho pensando em tudo o que pode e não pode acontecer, é tudo pensado, inclusive polêmica. Não penso em criar polêmicas, mas se isso acontece eu já espero. Sei bem o que eu estou fazendo, pode ter certeza!

MM: Com tantas músicas já lançadas e colaborações feitas, há algum estilo musical que você ainda queira fazer uma parceria? Dentro do próprio rap, você tem interesse em explorar alguma das novas vertentes?

Edi Rock: Vários, penso nisso o tempo todo. A música brasileira é muito rica, o tecnobrega é um exemplo. Gosto da autenticidade da música do Norte e Nordeste. Manguebeat também é outro fortíssimo.

MM: Ao longo de sua carreira, você sempre foi reconhecido como um grande contador de histórias, característica que pode ser encontrada em músicas como a “A Vítima”. Dentre os jovens artistas que vem se destacando no cenário atual, qual você acredita que mais se destaque nesse quesito?

Edi Rock: Em destaque não vejo ninguém, acho que sou privilegiado nesse estilo. Destaques não contam histórias, dá muito trabalho. São poucos os que se arriscam nessa área. Dessa geração não vi ainda, os que têm usam muito de metáforas. Da minha geração tem o Bill que faz isso muito bem e também o Dexter nessa linha.

MM: Com 30 anos de existência, o Racionais influenciou muitos fãs a mudar de vida, correr atrás dos próprios sonhos e lutar contra o sistema. Porém boa parte dessas pessoas hoje apoia políticos como Jair Bolsonaro e Wilson Witzel, que tem ideologias totalmente contrárias ao que o grupo sempre pregou. Como você reage diante disso?

Edi Rock: Não conheço dos meus que falam sobre isso abertamente. Eu vi alguns nas eleições, mas aposto que se arrependeram. Se não se arrependeram são loucos igual a quem apoiam. Nos dias de hoje quem apoia essa gestão ou é louco ou é doente do pé. Ninguém em sã consciência apoia o caminho que o país está seguindo!

MM: Em 2016, o Racionais lançou, em parceria com o Kondzilla, o clipe da faixa “Um Preto Zica”, do álbum Cores & Valores, o último trabalho do grupo. Existem planos para o lançamento de mais videoclipes desse álbum ou de músicas inéditas?

Edi Rock: Estamos pensando em músicas inéditas sim, pro ano que vem com certeza. Coisa boa vem por aí, pode aguardar.

MM: No dia 10 de outubro, em um show extra em São Paulo, vocês irão gravar o DVD da turnê “Racionais 3 Décadas”. Haverão participações especiais nessa produção? Se sim, você pode nos confirmar algum desses nomes?

Edi Rock: Não, sem participações. Essa gravação é para registrar o show turnê de 30 anos. No DVD estarão incluídas imagens de toda a turnê, mas será filmado nessa data em São Paulo, porque além de ser a nossa casa também terá uma estrutura que seria inviável na estrada.

MM: Se comparado a outros estilos musicais, o rap ainda é muito recente. Os principais artistas, as lendas do gênero em sua maioria ainda tem menos de 50 anos. Como é ser um dos primeiros a estar onde está e atingir o patamar e as marcas que ninguém ainda atingiu?

Edi Rock: É olhar para trás e ver que valeu a pena tudo que foi feito e olhar para a frente e ver que ainda pode ser feito mais! Existe espaço para mais feitos, estamos nessa fase, só música é pouco, estaremos no cinema também… já já, aguardem!

MM: Depois de 30 anos de carreira e uma vida financeira feita, o que o Edi Rock ouve, lê ou assiste que inspira ele a continuar produzindo e lançando novos trabalhos?

Edi Rock: Nós estamos com a vida profissional consolidada, a financeira não. Somos cantores de rap, não de funk ou sertanejo, e cantores na sua grande maioria vivem de shows, então trabalhamos pensando nesse lado financeiro também. Tenho pensado muito sobre isso, em como envelhecer bem, como estar lá na frente. A inspiração pra mim está aí, em envelhecer bem fazendo o que gosta e fazendo com qualidade. Em geral faço o que eu gostaria de ouvir se não fosse cantor, e mais que isso, faço o que aprendi e da forma que aprendi, não sei fazer de outra forma, apenas tento novas ideias. Isso é o que me motiva!

Rima em Prosa #1: Edi Rock fala com o Mais Minas sobre seu novo álbum
Os Racionais MC’s, em 2001 – Crédito da foto: Klaus Mitteldorf

Considerações finais

Edi Rock é uma lenda viva e um homem que vive e respira música! Mesmo após 30 anos de estrada, ele segue motivado a produzir e seguir marcando seu nome na história, sem deixar o ritmo cair e sem se ‘engessar’, como ele mesmo falou. Explorar novas sonoridades é importante para se manter vivo e manter viva a música, para que ela siga atingindo e influenciando positivamente a vida de quem a escuta, seja hoje ou daqui a 30 anos. O rap tem esse poder de influenciar as pessoas, seja através da história contada nas letras ou da história de quem as cantas. E se o rap atingiu o patamar que tem hoje, é porque Edi Rock estava lá.

Veja também: Eles movimentam a cena “underground” da música marginal mineira; conheça

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