A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) divulgou, no dia 18 de março, um pedido público de desculpas à sociedade brasileira pela utilização de corpos de vítimas do Hospital Colônia de Barbacena em atividades acadêmicas ao longo do século XX.
A prática ocorreu em um contexto marcado por graves violações de direitos humanos. Durante décadas, o hospital psiquiátrico recebeu milhares de pessoas, muitas delas sem diagnóstico clínico, em condições precárias. Estima-se que mais de 60 mil mortes tenham ocorrido no local.
Após a morte, parte dessas vítimas era enterrada como indigente ou tinha os corpos destinados a instituições de ensino. De acordo com levantamento da jornalista Daniela Arbex, autora do livro Holocausto Brasileiro, foram comercializados 1.853 cadáveres entre 1969 e 1981 para 17 faculdades de medicina no país. Desse total, 303 foram adquiridos pela UFMG.


No documento oficial, a universidade reconhece que a prática violou a dignidade e a memória das pessoas falecidas. A instituição afirma que o pedido de desculpas atende ao direito à verdade, à justiça e à memória, além de representar um compromisso com a revisão crítica de sua própria história.
A reitora à época, Sandra Regina Goulart Almeida, declarou no texto que a universidade lamenta profundamente a adoção de práticas incompatíveis com os direitos humanos e os valores democráticos. A instituição também destacou que a ciência não está imune a contextos históricos que podem legitimar violações.
Como parte das medidas anunciadas, a UFMG informou que irá implementar ações de reparação simbólica. Entre elas estão a criação de espaços de memória na Faculdade de Medicina, a restauração de registros históricos de recebimento de cadáveres e a inclusão do tema nas disciplinas do Departamento de Anatomia.
As iniciativas estão alinhadas às recomendações do Ministério Público Federal e contam com a participação de movimentos da luta antimanicomial. A universidade também reafirmou o compromisso de ampliar o debate sobre saúde mental e direitos humanos.
Atualmente, a instituição mantém práticas consideradas éticas na obtenção de corpos para ensino, como o programa de doação voluntária “Vida após a vida”, em funcionamento há mais de duas décadas. Além disso, realiza anualmente a Semana de Saúde Mental desde 2013.
Em publicação nas redes sociais, Daniela Arbex destacou a importância do posicionamento institucional. Segundo a jornalista, esta é a primeira vez que uma instituição pública reconhece e pede desculpas pelas violações ocorridas no sistema psiquiátrico de Barbacena ao longo do século XX.
A UFMG afirmou que manter viva essa memória é fundamental para evitar a repetição de práticas que desumanizam indivíduos em situação de vulnerabilidade. A instituição também ressaltou que o reconhecimento do passado é parte essencial do processo de reparação histórica.







