A Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) divulgou um pedido público de desculpas pelo uso de corpos de pacientes do Hospital Colônia de Barbacena em atividades acadêmicas ao longo do século XX. A retratação foi publicada no Dia Nacional da Luta Antimanicomial, celebrado em 18 de maio, e ocorre cerca de dois meses após manifestação semelhante feita pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Segundo a UFJF, registros do Instituto de Ciências Biológicas apontam que a universidade recebeu 169 cadáveres entre 1962 e 1971 para utilização em aulas de anatomia voltadas aos cursos da área da saúde.
“Em respeito ao direito à verdade, à justiça e à memória, a Universidade Federal de Juiz de Fora pede desculpas à sociedade brasileira por essa prática, que aviltou os corpos e a dignidade das pessoas falecidas no Hospital Colônia de Barbacena”, afirmou a instituição em nota oficial.
A universidade informou ainda que seguirá recomendações da Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão, vinculada ao Ministério Público Federal em Minas Gerais, responsável por investigar a destinação de corpos do antigo hospital psiquiátrico para faculdades de medicina do país.

O que foi o Hospital Colônia de Barbacena?

Fundado em 1903, o Hospital Colônia de Barbacena tornou-se um dos maiores símbolos de violações de direitos humanos no Brasil. Criado inicialmente para tratamento psiquiátrico, o espaço recebeu ao longo de décadas milhares de pessoas internadas compulsoriamente, muitas delas sem diagnóstico de transtorno mental.
Levantamentos históricos apontam que apenas cerca de 30% dos internos possuíam diagnóstico psiquiátrico. Entre os enviados ao local estavam homossexuais, mulheres consideradas “indesejadas” socialmente, alcoólatras, pessoas pobres, opositores políticos e indivíduos afastados do convívio familiar.
As condições do hospital foram denunciadas ao longo do século XX por relatos de maus-tratos, abandono, fome, superlotação e mortes em massa. Estima-se que cerca de 60 mil pessoas tenham morrido no local.
Parte das vítimas era enterrada como indigente. Em outros casos, os corpos eram encaminhados para instituições de ensino sem autorização das famílias.

Como funcionava a venda de corpos para universidades?
O envio de cadáveres do Hospital Colônia para faculdades brasileiras foi documentado pela jornalista Daniela Arbex no livro Holocausto Brasileiro. Segundo a pesquisa, pelo menos 1.853 corpos foram comercializados entre 1969 e 1981 para 17 instituições de ensino do país.
A própria UFMG reconheceu ter adquirido 303 cadáveres provenientes do hospital psiquiátrico. Em março deste ano, a universidade tornou-se a primeira instituição pública brasileira a divulgar um pedido formal de desculpas relacionado ao tema.

Na ocasião, a UFMG afirmou que a prática violou a dignidade das vítimas e informou que adotaria medidas de reparação simbólica, incluindo preservação de registros históricos, criação de espaços de memória e inclusão do tema em disciplinas acadêmicas.
Após o posicionamento da universidade mineira, a UFJF passou a avaliar uma retratação pública semelhante, oficializada agora em maio.
O que dizem as universidades atualmente?
A UFJF informou que, desde 2010, utiliza exclusivamente corpos provenientes de doação voluntária por meio do Programa Sempre Vivo, voltado ao ensino de anatomia.
Já a UFMG afirmou manter, há mais de duas décadas, o programa “Vida após a vida”, também baseado na doação voluntária de corpos para fins acadêmicos.
As duas instituições destacaram a necessidade de preservar a memória das violações ocorridas no sistema psiquiátrico brasileiro e ampliaram o compromisso com debates ligados à saúde mental, direitos humanos e reforma psiquiátrica.
O tema voltou ao centro das discussões em meio ao processo de encerramento definitivo das atividades do Hospital Colônia de Barbacena. O Governo de Minas informou recentemente que os últimos pacientes da instituição seriam transferidos ao longo de maio, encerrando um ciclo iniciado há mais de 120 anos.







