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terça-feira, 6 dezembro 2022

Júlio Dash
Júlio Dash
Júlio Roberto Gomes é psicanalista e terapeuta analítico Jungiano, especializado em Hipnose e Inteligência Social, atuando na área há quase 5 anos. Tem como formação base o curso de Tecnologia em Recursos Humanos e estudos a parte de Criminalística.

Tudo está cada vez mais smart, menos a gente

Quando criança tudo que tinha pra assistir era uma TV de tubo, com seletor de canais que girava do 1 ao 12, mas só pegava mesmo o 2, 4, 5, 6 e às vezes o 7, mas pra isso tinha de ir lá fora girar a antena e pelo som da TV perceber se tinha achado o lado certo. Claro que isso fazia algum dos outros canais sumir, então a gente fingia que o 7 não existia.

Nessa imensidão de 4 canais, com programas super interessantes como anúncios de Facas Ginshu e meias Vivarina, ocorria de eventualmente, pasmem, ficar entediado. Nesses momentos, se me percebesse quieto demais em um canto, minha mãe perguntava o que tinha de errado, ao que eu respondia “não tem nada pra fazer” e ela respondia “Inventa então”.

Fui um grande inventor, de coisas que só crianças podem inventar, capacetes feitos de panela, manto da invisibilidade feito de toalha de mesa e de receitas gourmet super chiques, como biscoito maisena com leite condensado e achocolatado ou sanduiche de ovo frito. Potencial pra Masterchef, né? Eu sei, um dia posto a receita pra vocês.

Ao inventar, meu cérebro se moldava e criava circuitos que duram até hoje, a ciência chama isso de Neuroplasticidade, que nada mais é que os neurônios brincando de lego e formando caminhos que nos tornam quem nós somos, em parte, afinal nem só de peças lego viverá o homem.

Atualmente não há momentos sem nada pra fazer, sempre tem um vídeo novo pra assistir, uma postagem pra compartilhar, dar like, um ou mil crushes pra ficar vendo os stories. Estamos criando circuitos que só consomem, que não criam, já vem tudo pronto, tudo smart pra que a gente tenha mais praticidade, que precisemos pensar menos.

É smartphone, smartwatch, smart TV, smart Fit e a nada de Smart People

Acontece que “inventa” é um processo necessário pro desenvolvimento humano, precisamos aprender a pensar, o cérebro não vem com atualização automática e melhorias de funcionalidade de fábrica, na verdade até vem, mas é analógico, precisa de um leve esforço, às vezes de um envolvimento emocional, mas além de tudo, precisa de participação ativa.

Imagine o seguinte, feriadão prolongado, aquele verão escaldante, uma amiga sua te liga, quer dizer, te manda um zap, e diz que alugaram um sítio, é free pra você, só ir, tem cervejinha gelada, churrasco, rede e uma piscina te esperando. Bora? Para fins de que esse exemplo faça sentido, vou supor que você vai, ok?

Te mandaram uma localização pelo Zap, por milagre tem sinal e você chega lá, é um belo sítio, com um gramado bem grande na frente, o que você faz? Você procura uma trilha na grama, um lugar pra passar, você acha e ao invés de só ir reto você vai 7 metros pra direita e segue pela trilhazinha. Porque?

Se aquela trilha está ali é porque normalmente é por ela que passam quando precisam chegar ao sitio ou voltar dele, certo? É obvio que você vai passar por lá. Acontece que dentro da sua cabeça tem milhões de sítios, ao qual chamamos de comportamentos, que incluem a forma como você age, reage, pensa, sente, se comunica e tudo mais. Pra cada sítio desse existem trilhas, que são os circuitos cerebrais, vários desses a gente chama de Complexos, mas isso é papo pra outro dia.

Então quando você cria uma trilha pra um sentimento, toda vez que você estiver em uma situação parecida que precise de uma resposta, seu cérebro vai optar por seguir a trilha que já tá pronta. Isso constitui um padrão de comportamento ou padrão emocional, também conhecido como “Porque que eu sempre faço isso, meu Deus?”

Todos esses momentos de respostas automáticas que a gente chama de vida, são em grande parte inconscientes, não sempre, não vai botar a culpa em Freud pelas besteiras que tu faz por querer não… Enfim, grande parte desses processos inconscientes podem ser mudados. Como? Você pergunta. É simples gafanhoto, eu respondo.

Você precisa começar a se tornar consciente da forma que você age, reage, pensa, sente, se comunica e tudo mais… Eu disse que era simples, não que era fácil.

Jung, um cara muito inteligente, disse uma vez “Até você se tornar consciente, o inconsciente vai governar sua vida e você vai chamar isso de destino”. Frase muito bacana, né? Eu disse que ele era inteligente.

Ao se tornar consciente, você começa a avaliar qual a melhor forma de agir, reagir… E dai você cria novas trilhas mentais, o que vai ser confuso a principio, afinal quando a situação surgir, qual trilha seu corpo vai seguir? A resposta é “Depende de você”.

Quanto mais consciente você está, mais controle tem, e a longo prazo a nova trilha se torna a padrão e você pode deixar o piloto automático ligado de novo. Na ciência chamam isso de Neuroplasticidade competitiva, isso leva um tempo, envolvimento da sua parte e em grande parte a habilidade de pensar e inventar.

Inventar uma nova vida, uma melhor, uma que você seja mais smart, com processamentos mais rápidos, respostas mais eficientes e que consiga manter a sua bateria com carga o dia todo.

A vida é um misto de inventa, muda o canal, vai lá fora, vira sua antena pra outra direção, mesmo sem ver o que ta acontecendo, se soar bem, ótimo. O canal 7 da sua vida vai afetar o canal 4 talvez, mas dependendo de qual programação você gostar mais, talvez seja o melhor a se fazer.

A questão é que você não precisa fazer isso sem ajuda, amigos, família, outras pessoas que estão na jornada, um terapeuta. Existem muitos recursos que você pode usar, canais que você pode sintonizar.

Quando se sentir incapaz, quando pensar que não tem mais o que fazer, lembre do conselho da minha mãe “inventa”.

* Esse texto é um artigo de opinião do colunista e pode não representar a posição do portal Mais Minas sobre o assunto.

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