Três eventos na mesma semana de maio de 2026 resumem o momento de Ouro Preto no mapa do turismo brasileiro. O Ministério do Turismo lançou, em parceria com a UNESCO, um edital que cita a cidade entre os principais sítios do país a serem beneficiados por consultoria especializada em gestão turística. O Governo de Minas abriu 2.500 vagas em curso técnico de Guia de Turismo em 61 municípios, com Ouro Preto na lista. E a cidade anunciou o Festival de Vinhos, novo evento do calendário cultural de junho, com três dias de degustações, gastronomia e música ao vivo no Largo do Cinema. Isoladas, cada uma dessas iniciativas seria notícia. Juntas, traduzem a escala do movimento turístico que a antiga Vila Rica acumulou nos últimos anos.
O edital do Ministério do Turismo prevê a contratação de consultoria para desenvolver ferramentas de diagnóstico, planejamento e governança voltadas a gestores públicos de sítios reconhecidos como Patrimônio Mundial. Ouro Preto é citada explicitamente na iniciativa, ao lado de Brasília, o Parque Nacional do Iguaçu e a Serra da Capivara. “O Brasil possui sítios reconhecidos mundialmente pela sua riqueza cultural e natural. Fortalecer a gestão turística desses territórios significa promover desenvolvimento sustentável, valorizar as comunidades locais e garantir a preservação desse patrimônio para as próximas gerações”, declarou o ministro do Turismo, Gustavo Feliciano. As propostas podem ser enviadas até 8 de junho de 2026 pela plataforma oficial de licitações da UNESCO. Para quem viaja de avião e enfrenta um voo atrasado a caminho de Minas Gerais, tem na chegada a Ouro Preto uma compensação à altura da espera.
Na mesma semana, o programa Guia Minas Qualificando o Turismo abriu inscrições pelo Sistema Único de Cadastro e Encaminhamento para Matrícula (Sucem) para o curso técnico de Guia de Turismo, com vagas distribuídas em 63 escolas de 61 municípios do estado. O curso tem 800 horas, divididas em dois módulos: o primeiro certifica o estudante como Operador de Turismo; o segundo diploma o estudante como Técnico em Guia de Turismo, com foco em condução de grupos, leitura de mapas, uso de equipamentos e interpretação do patrimônio cultural. “A formação de profissionais qualificados é fundamental para fortalecer o turismo como vetor de desenvolvimento econômico e social em Minas Gerais”, afirmou o secretário estadual de Cultura e Turismo, Leônidas Oliveira.
O Festival de Vinhos completa o trio de iniciativas. Entre os dias 12 e 14 de junho, a Praça Reinaldo Alves de Brito recebe estandes de vinhos, opções gastronômicas e apresentações musicais com repertório de MPB, jazz e blues, das 16h às 23h59. A entrada é gratuita, com retirada antecipada de ingressos pela plataforma oficial do evento. O festival passa a integrar um calendário de inverno que já inclui o Festival de Inverno de Ouro Preto e a CineOP, e chega em junho, mês que coincide com o Dia dos Namorados e com aumento habitual na circulação de visitantes pela cidade histórica.
Esse acúmulo de agenda não é improviso. Em 2024, a Secretaria de Cultura e Turismo de Ouro Preto apoiou mais de 400 eventos no município, dos grandes festivais (Carnaval, Semana Santa, Festival de Inverno) às festividades nos 12 distritos e em mais de 80 localidades. “Ouro Preto é uma cidade festiva e festeira”, resumiu o secretário municipal Flávio Malta. Para ele, a cultura e o turismo operam em conjunto: “O turismo está dentro da cultura. O turismo é um dos meios para se promover a cultura. A nossa prioridade é cuidar da cultura e que ela traga o retorno atraindo o turismo.”
Os números de visitação de 2024 mostram o resultado desse modelo. Ouro Preto terminou o ano entre os dez destinos com mais reservas de atividades turísticas do Brasil, segundo dados apresentados pela secretária adjunta de Cultura e Turismo, Sônia, em audiência pública na Câmara Municipal. A cidade foi a mais visitada de Minas Gerais e chegou ao segundo lugar no ICMS cultural entre todos os municípios do estado. O Museu da Inconfidência, instalado no antigo prédio da Casa de Câmara e Cadeia, na Praça Tiradentes, registrou 360 mil visitantes, o que representa uma média de 30 mil por mês.
A taxa de ocupação hoteleira chegou a 66%, ante os 30% a 35% de períodos anteriores. “Eu posso falar isso porque eu fui da hotelaria: nós quase dobramos aí”, afirmou a secretária Sônia. A estrutura hoteleira conta hoje com o Vila Galé, hotel de bandeira internacional, além de pousadas em casarões coloniais restaurados concentradas no Centro Histórico e em bairros como Antônio Dias, Pilar e Rosário. Diárias em hotéis e pousadas de padrão médio variam entre R$ 250 e R$ 450 para casal, e refeições em restaurantes tradicionais custam entre R$ 40 e R$ 70 por pessoa.
A pesquisa de perfil realizada pelas secretarias municipais em pontos turísticos durante 2024 traçou o retrato ainda atual de quem visita a cidade. A faixa etária predominante é a de 21 a 30 anos, seguida pela de 31 a 40 anos. Mulheres respondem por 59,37% dos visitantes. Quase metade (49%) tem ensino superior completo. A maioria vem de Minas Gerais, seguida por turistas de São Paulo. Estrangeiros representam apenas 2,44% do total. O gasto médio de quem permaneceu três dias na cidade foi de R$ 1.425. As palavras mais associadas à Ouro Preto pelos visitantes foram “Museu da Inconfidência”, “igrejas”, “minas” e “praças”.
A base que sustenta esses números é histórica e física. Fundada em 1711, Ouro Preto preserva 90% de seu conjunto urbano original na Serra do Espinhaço, a 96 quilômetros de Belo Horizonte. O acervo inclui 14 museus, igrejas barrocas com obras de Aleijadinho e Mestre Ataíde, entre elas a Igreja de São Francisco de Assis e a Basílica de Nossa Senhora do Pilar, com mais de 400 kg de ouro em talha; minas desativadas abertas à visitação e 12 distritos com atrações próprias. São Bartolomeu figura entre as três vilas rurais mais bonitas do Brasil, enquanto Lavras Novas é descrita como estação de inverno permanente.
No plano estadual, Minas Gerais liderou o crescimento do volume de atividade turística no Brasil em 2023, segundo o IBGE. Foram 31 milhões de turistas e R$ 34 bilhões movimentados. O prefeito de Ouro Preto, Angelo Oswaldo, enquadra o turismo como estratégia de diversificação econômica para um município historicamente dependente da mineração. “Quando as indústrias hoje estão prescindindo das pessoas pelo avanço tecnológico e a colocação de máquinas em todos os locais estratégicos de produção, nós temos sempre a presença da mulher e do homem na atividade turística, que são indispensáveis”, afirmou. Para a secretária adjunta Sônia, o impacto vai além das cifras turísticas: “Eleva o PIB local e impulsiona novos negócios. A Prefeitura investindo em eventos culturais e turísticos, o impacto ampliado na cadeia local fortalece, gera empregos, renda de pequenos negócios e fortalece a empregabilidade temporária.”







