O rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, foi tema de um dos principais debates do IV Congresso Nacional de Comunicação dos Tribunais de Contas (CNCTC), encerrado nesta terça-feira (4), em Ouro Preto.

O painel “Jornalismo Investigativo e Responsabilidade Socioambiental diante da Urgência Climática” reuniu os jornalistas Lucas Ragazzi, do portal O Fator, e Murilo Rocha, da Band Minas, autores do livro “Brumadinho: a engenharia de um crime”, para discutir o papel do jornalismo investigativo na fiscalização da mineração e na prevenção de tragédias ambientais.
Com mediação da procuradora-geral do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE-MG), Sara Meinberg, o debate abordou os bastidores da investigação que deu origem ao livro, os desafios enfrentados pelos jornalistas na cobertura de grandes desastres e a necessidade de transformar informações técnicas em conteúdo acessível à população. Durante o painel, os convidados defenderam uma atuação mais próxima entre imprensa e órgãos de controle, como forma de ampliar a transparência e fortalecer o controle social.
Ao explicar como surgiu a obra, Murilo Rocha afirmou que o objetivo era produzir uma investigação mais aprofundada sobre um dos maiores desastres humanitários do país: “O livro nasceu da necessidade de um trabalho de maior fôlego sobre uma grande tragédia humanitária”, disse. O jornalista acrescentou que também se sentia incomodado por não haver uma narrativa jornalística tão extensa sobre o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, ocorrido quatro anos antes.
Os autores também apresentaram detalhes da investigação reunida no livro. Segundo eles, documentos e estudos geotécnicos apontavam que o Fator de Segurança (FS), indicador que mede a estabilidade da barragem de Brumadinho, estava abaixo do mínimo previsto pela legislação. Eles revelaram ainda ter tido acesso a e-mails de profissionais terceirizados que admitiam não conseguir atingir o índice exigido e relataram que, diante da pressão para manter a operação, foi adotado um “malabarismo matemático” para justificar que a estrutura apresentava condições de funcionamento.
Ao comentar a repercussão da publicação, Lucas Ragazzi destacou que o trabalho ultrapassou o meio jornalístico e passou a ser utilizado inclusive em processos judiciais: “O livro teve a importância de contar essa história e tem sido usado até por advogados em ações de indenização às famílias das vítimas”, afirmou.
O jornalista também criticou a forma como a mineração era tratada pela imprensa antes do rompimento da barragem em Brumadinho. Segundo ele, “até Brumadinho, o jornalismo se limitava a pequenas notas”, realidade que atribuiu à influência de interesses econômicos sobre a comunicação. Para Ragazzi, o fortalecimento de uma imprensa crítica e independente é essencial para ampliar a fiscalização sobre grandes empreendimentos.
Outro ponto destacado durante o painel foi a importância da parceria entre jornalistas e órgãos públicos de controle. Como exemplo, os palestrantes citaram a auditoria realizada pelo Tribunal de Contas de Minas Gerais (TCE-MG), em 2025, para investigar a atuação das mineradoras no estado. Para Murilo Rocha, “é importante essa aproximação para transformar o conteúdo técnico em informação pública. A imprensa precisa buscar esses dados, apropriar-se desse conteúdo e reverberá-los em prol da sociedade”.
Mariana e Brumadinho

Os debates realizados durante o congresso tiveram como pano de fundo duas das maiores tragédias socioambientais da história do Brasil. Em 5 de novembro de 2015, a barragem de Fundão, pertencente à Samarco, empresa controlada pela Vale e pela BHP, rompeu-se em Mariana. Cerca de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração destruíram os distritos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, e provocaram a morte de 19 pessoas, e percorrendo mais de 600 quilômetros pela Bacia do Rio Doce até o litoral do Espírito Santo, causando impactos ambientais, sociais e econômicos que ainda persistem.

Pouco mais de três anos, em 25 de janeiro de 2019, uma nova tragédia voltou a colocar Minas Gerais no centro das discussões sobre segurança de barragens. O rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, da Vale, em Brumadinho, liberou aproximadamente 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos, atingindo instalações da própria mineradora, comunidades vizinhas e o Rio Paraopeba. O desastre matou 272 pessoas, entre trabalhadores da empresa e moradores da região, tornando-se a maior tragédia trabalhista da história do país. Os dois rompimentos provocaram mudanças na legislação, intensificando a fiscalização das barragens nas mineradoras.
Ao final do debate, os jornalistas defendem que um jornalismo investigativo fortalecido e o acesso a informações produzidas por órgãos de fiscalização são fundamentais para ampliar a transparência e contribuir para que tragédias como as de Mariana e Brumadinho não voltem a acontecer.











