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O Ministério Público Federal (MPF) recomendou, nesta quarta-feira, 29 de abril, que o Governo de Minas Gerais anule a licença ambiental concedida a um empreendimento minerário na Serra de Botafogo, em Ouro Preto. O órgão também solicitou a suspensão imediata de licenças já emitidas e a paralisação da análise de outros sete projetos na mesma região.

A recomendação foi encaminhada à Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) e aponta falhas técnicas e jurídicas no processo de licenciamento. O MPF afirma que as irregularidades podem resultar em danos ao meio ambiente e ao patrimônio histórico.

Estudo com informações inconsistentes

De acordo com o inquérito civil, o estudo espeleológico apresentado pela empresa contém informações inconsistentes. O documento indicava que a área possuía alto potencial espeleológico, mas sem registro de cavidades naturais subterrâneas.

No entanto, uma cavidade considerada de relevância geológica e cultural foi destruída por máquinas da mineradora em março de 2025, após o início das atividades.

Ausência de autorização e suspeitas no processo

O MPF também apontou a ausência de anuência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o que comprometeria a validade das licenças concedidas.

Outro ponto citado é a movimentação incomum do processo entre unidades regionais da Semad, o que levantou questionamentos sobre a condução do licenciamento.

O caso está inserido no contexto da Operação Rejeito, que investiga suspeitas de irregularidades em processos ambientais, incluindo pagamentos indevidos para favorecer empreendimentos minerários.

Avaliação isolada de impactos

A recomendação destaca que os impactos dos projetos na Serra de Botafogo vêm sendo analisados de forma individual, sem considerar o efeito conjunto das atividades.

Para o MPF, essa fragmentação impede a avaliação adequada dos impactos ambientais e sociais na região.

“A análise individualizada dos processos de licenciamento ignora a realidade do território. É indispensável que o estado avalie o impacto conjunto desses empreendimentos”, afirmou o procurador da República Eduardo Henrique de Almeida Aguiar.

Região concentra recursos hídricos e patrimônio histórico

A Serra de Botafogo é parte da Serra de Ouro Preto e abriga nascentes que abastecem as bacias dos rios Doce e São Francisco. O Ribeirão Funil, localizado na região, é responsável pelo abastecimento de grande parte do distrito de Cachoeira do Campo.

A área também reúne vestígios da mineração colonial e estruturas históricas, como a Capela de Santo Amaro e a Trilha Imperial. Ouro Preto é reconhecida como Patrimônio Mundial pela Unesco.

Entenda o caso da mineradora

A recomendação do MPF ocorre em meio a disputas judiciais envolvendo a mineradora Patrimônio Mineração, alvo de ação civil pública após a destruição de uma cavidade natural na Serra de Botafogo.

O caso levou ao embargo das atividades, posteriormente revertido com a homologação de um termo de compromisso firmado com o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG).

O acordo prevê pagamento de R$ 5,5 milhões por danos morais coletivos e R$ 5,55 milhões por danos ao patrimônio espeleológico, além da realização de auditoria técnica independente e cumprimento de medidas ambientais.

Comunidade articula proteção da área

Paralelamente, moradores da região articulam um projeto de lei de iniciativa popular para reconhecer a Serra de Botafogo como patrimônio hídrico, ambiental e cultural.

A proposta busca restringir atividades de mineração e permitir apenas usos considerados compatíveis, como agricultura familiar, turismo e pesquisa científica.

Operação Rejeito investiga irregularidades

O caso também se conecta à Operação Rejeito, que apura a atuação de um grupo envolvido em exploração mineral sem licença e possíveis irregularidades em processos de autorização ambiental.

As investigações apontam a existência de empresas de fachada, uso de documentos falsos e participação de agentes públicos na liberação de licenças.

Prazo para resposta

A Semad tem prazo de 30 dias para informar ao MPF se irá acatar as recomendações.

Rodolpho Bohrer

Sócio-proprietário e fundador do Mais Minas e jornalista em formação pela Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Redator de cidades, tecnologia e política, além de link builder na Agência MaisPost. Em 2026, foi um dos repórteres vencedores do prêmio estadual "Tributação e Justiça Social", promovido pelo Sindicatos dos Jornalistas Profissionais do Estado da Bahia (SINJORBA).