Take a fresh look at your lifestyle.

Mulheres organizadas contra o assédio no carnaval: “Cadê meu celular, eu vou ligar pro 180!”

Ainda estamos em fevereiro, mas as mulheres já travaram muitas lutas neste ano de 2018. O calendário de lutas feministas inicia com uma grande mobilização dos movimentos de mulheres sobre o tema ‘assédio’ no carnaval.

Segundo dados da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres (SPM) do governo federal, as denúncias de violência sexual no Carnaval do ano passado aumentaram 87,9% em comparação à folia de 2016.

O que comumente chamamos de assédio são condutas ou manifestações grosseiras, que independem independente da vontade da pessoa a quem é dirigida e que pode ser configurado como crime, dependendo do comportamento do assediador. É o famoso “fiu fiu” e suas variações mais vulgares, que se tornam muito mais corriqueiros nos dias de folia.

Segundo informações do site justificando[1]:

“Paquera ou assédio? Quando um homem tem interesse em conhecer uma mulher, ou elogiá-la, ele não lhe dirige palavras que a exponham ou a façam sentir-se invadida, ameaçada ou encabulada. Caracteriza-se como assédio verbal (artigo 61, da Lei das Contravenções Penais n. 3.688/1941), quando alguém diz coisas desagradáveis ou invasivas (como podem ser consideradas as famosas “cantadas”) ou faz ameaças. Apesar de ser considerado um crime-anão, ou seja, com potencial ofensivo baixo, também é considerado forma de agressão e deve ser coibido e denunciado.”.

Felizmente, a maior parte das mulheres já compreende que não deve entender estes comportamentos como normais e tem se unido, em campanhas frequentes, para enfrentar a naturalização da cultura machista no carnaval.

Uma destas campanhas é a #aconteceunocarnaval, de iniciativa dos Mete a Colher, Women Friendly e redes Meu Recife, Minha Sampa, com o apoio de outras redes. O principal objetivo da campanha é registrar denúncias de casos de assédio no carnaval para construir um Mapeamento dos locais onde acontece maior incidência de violência de gênero. O gráfico a seguir mostra o resultado do Mapeamento feito no ano passado na cidade de Olinda (PE).

Figura 01 – Tipos de assédio mais sofridos no carnaval de 2017

Fonte: Relatório da Campanha de conscientização contra o assédio sexual durante o Carnaval de Recife e Olinda. Disponível em: https://s3-sa-east-1.amazonaws.com/instintodevida/assets/aconteceunocarnaval_imprimir3.pdf

carnaval_0

Já aqui na cidade de Ouro Preto, foi iniciativa do Núcleo Municipal da União Brasileira de Mulheres de trazer uma campanha contra o assédio no carnaval que dialoga com a cultura local, utilizando as imagens do bloco mais antigo da cidade, o Zé Pereira dos Lacaios, que completou 151 anos no último 01 de Janeiro.

 

 

 

carnaval_02carnaval_00

 

 

 

 

 

 

carnaval_01carnaval_03

 

 

 

 

 

 

Figuras 02-06: Imagens da Campanha contra o assédio no carnaval 2018 da União Brasileira de Mulheres de Ouro Preto.
Fonte: Arquivo UBM Ouro Preto

central-atendimento-mulher-1Cabe enfatizar que o enfrentamento à violência não deve ser objeto de ações e campanhas pontuais, com o foco apenas no carnaval ou outras grandes festas. E que, apesar de campanhas como estas serem de extrema importância por suscitarem o debate do assédio sexual que, constrange a nós mulheres brasileiras todos os dias; precisamos lembrar que o canal oficial para o atendimento às vítimas de violência contra a mulher é o LIGUE 180.

 

 

 

 

 

 

 

Este número possui abrangência nacional e funciona 24 horas por dia. Ao ligar neste número, o denunciante (sendo a vítima ou alguém que presenciou uma violência) é atendido por profissionais treinados que dão orientações de forma gratuita, abrem um protocolo e encaminham os casos para as autoridades competentes.

No último Carnaval, o Disque 180 registrou 2.132 queixas de mulheres. A violência física foi o principal motivo das ligações (1.136). Em seguida, vem a violência psicológica (671), sexual (109), violência moral (95), denúncias de cárcere privado (68), violência patrimonial (49) e tráfico de pessoas (4).

Por considerar este canal de extrema importância para o enfrentamento à violência contra as mulheres, é que em Ouro Preto, a União Brasileira de Mulheres busca tornar obrigatória a colocação de placas com o número do Disque 180 no município. A entidade feminista vem coletando assinatura para o projeto de lei de iniciativa popular, que necessita de aproximadamente 3.000 assinaturas para ser enviado à Câmara Municipal de Ouro Preto.

Paralelamente a isso, a Rede Municipal de Enfrentamento à Violência contra as mulheres (lançada em Novembro/2017) começa a difícil tarefa delinear um protocolo para atuação nos casos de violência. Estas duas iniciativas são complementares, e caracterizam o protagonismo da sociedade civil organizada de Ouro Preto na formulação de políticas públicas voltadas à prevenção da violência contra a mulher.

Finalmente, destacamos o quanto é incipiente a estrutura de nosso município em políticas para as mulheres. É preciso dar um grande passo e instituir uma política municipal efetiva voltada para as mulheres, que considere que a maior parte delas é negra (70% da população ouro-pretana se reconhece como negra) e trabalhadora. Estas mulheres sofrem múltiplas violências estruturais e cotidianas.

É preciso seguir em frente, organizando as mulheres para o enfrentamento da cultura machista… Lutando contra a violência e a cultura machista, lutando por uma outra sociedade. Organizando para desorganizar.

Por todas as mulheres, nenhum passo atrás!

_________________________
i. http://justificando.cartacapital.com.br/2016/03/07/assedio-sexual-nao-e-cantada-e-tem-punicao/

Mulheres organizadas contra o assédio no carnaval: “Cadê meu celular, eu vou ligar pro 180!”
Sou Arquiteta e Urbanista, especialista em Patrimônio Cultural, ouro-pretana por opção e servidora pública da Prefeitura Municipal de Ouro Preto. Desde aqui me instalei luto por uma cidade mais justa e com menos desigualdade social. Paralelamente à minha carreira profissional, adotei a pauta das mulheres, pois acredito que é preciso subverter as relações de poder instituídas em nossa sociedade. Foi por isso que, em 2017, fundei em Ouro Preto o núcleo Municipal da União Brasileira de Mulheres, do qual atualmente sou Presidenta Municipal. Se tem uma frase em que acredito é: “Devo dizer, correndo o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro revolucionário é movido por sentimentos de amor.” (Che Guevara)

Leia também:

Close