A Agência Nacional de Mineração (ANM) elevou de baixa para média a Categoria de Risco (CRI) da barragem Campo Grande, da Vale, localizada na Mina de Alegria, em Mariana. A mudança aparece no boletim de julho da agência e ocorre cerca de sete meses depois da conclusão das obras de descaracterização da estrutura. O boletim referente ao mês foi publicado pela ANM em 5 de agosto.

Segundo informações da ANM, a alteração ocorreu após serem identificadas mudanças no estado de conservação dos taludes, necessidade de revegetação e assoreamento em alguns dispositivos de drenagem superficial.
Apesar da elevação da categoria, a agência informou que as ocorrências identificadas não estão associadas a um potencial comprometimento da segurança da estrutura. A Vale também afirma que Campo Grande permanece estável, segura e sem nível de alerta ou emergência.
A Categoria de Risco é um indicador regulatório utilizado na fiscalização das barragens. O cálculo considera características técnicas, estado de conservação e o Plano de Segurança da Barragem. Pelos critérios da ANM, a categoria média corresponde, em regra, a pontuação superior a 40 e inferior a 80.
Por isso, categoria de risco média não deve ser confundida com nível de emergência. A mudança registrada para Campo Grande não significa, por si só, que a barragem esteja em situação de emergência.
Vale já iniciou medidas corretivas
A ANM determinou que a Vale adotasse medidas para corrigir as condições encontradas. Em uma inspeção regular reportada pela própria mineradora à agência em 17 de julho, a empresa informou que as intervenções já estavam sendo executadas.
A Vale declarou que Campo Grande continua sendo monitorada durante 24 horas por dia, sete dias por semana, pelos Centros de Monitoramento Geotécnico da companhia.
A mineradora sustenta ainda que, durante o período posterior à descaracterização, a Categoria de Risco pode apresentar variações relacionadas a necessidades rotineiras de manutenção e reforça que essa classificação não equivale a uma avaliação direta da estabilidade.
O próprio histórico de Campo Grande após as obras registra intervenções desse tipo. Relatório da Vale informa que, já em janeiro de 2026, foram realizadas limpeza de dispositivos de drenagem, manutenção de acessos e adequações pontuais decorrentes das chuvas.
Obras de descaracterização terminaram em dezembro
A Campo Grande foi construída pelo método de alteamento a montante e teve as obras de descaracterização concluídas em dezembro de 2025. A Vale anunciou na ocasião que era a 19ª estrutura do tipo a ter as intervenções concluídas dentro de seu programa.
Os trabalhos envolveram a retirada do alteamento a montante, reconfiguração da estrutura, construção de reforços, impermeabilização e adequações no sistema de drenagem.
A descaracterização modifica a estrutura para que ela deixe de funcionar como uma barragem de rejeitos nos moldes anteriores. No caso de Campo Grande, porém, o processo não envolveu a retirada do rejeito armazenado, conforme informações divulgadas pela própria Vale.
Em relatório posterior às obras, a empresa afirmou entender que Campo Grande não se enquadra mais no conceito legal de barragem por não operar como estrutura de contenção de sedimentos ou rejeitos. A Vale também informou ter protocolado junto à Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) pedido para o descadastramento da estrutura.
Monitoramento continua após a descaracterização
A conclusão das obras não encerra imediatamente o acompanhamento da estrutura. Campo Grande permanece no período de monitoramento previsto após a descaracterização.
Relatório da ANM sobre as barragens a montante registra dezembro de 2025 como início desse período e dezembro de 2027 como previsão de término do acompanhamento da Campo Grande.
Ao anunciar a conclusão das obras, a própria Vale informou que a estrutura permaneceria monitorada por pelo menos dois anos, enquanto a documentação e as evidências técnicas da descaracterização seriam submetidas aos órgãos competentes.
É justamente durante esse período posterior às intervenções que ocorreu a mudança da Categoria de Risco identificada pela ANM.
Campo Grande tem 94 metros de altura
A estrutura tem 94 metros de altura, dimensão próxima à de um edifício de aproximadamente 30 andares, e reservatório de 20,1 milhões de metros cúbicos.
Apesar da Categoria de Risco média, Campo Grande é classificada com Dano Potencial Associado (DPA) alto. Os dois indicadores medem aspectos diferentes.
O DPA considera as possíveis consequências de um eventual rompimento, incluindo perdas de vidas, impactos ambientais e efeitos socioeconômicos. Já a Categoria de Risco considera fatores ligados às características técnicas, conservação e gestão de segurança.
De acordo com os dados apresentados no Sistema Nacional de Informações sobre Segurança de Barragens, a área potencialmente afetada a jusante possui ocupação permanente, com estimativa de que entre mil e 5 mil pessoas poderiam ser atingidas em um cenário hipotético de ruptura.
Mudança ocorre dias após embargo de outra estrutura da Vale
A alteração na classificação da Campo Grande ocorre em um período de outras decisões da ANM envolvendo estruturas da Vale na Região Central de Minas.
Em 28 de agosto, a agência determinou o embargo da barragem Maravilhas II, na Mina do Pico, em Itabirito, impedindo novos depósitos de rejeitos até a regularização de documentos relacionados à segurança.
Naquele caso, porém, a agência esclareceu que a medida não foi motivada pela identificação de uma nova anomalia física. Maravilhas II havia deixado o nível 1 de emergência em janeiro e estava inoperante por planejamento operacional quando ocorreu o embargo.
Os dois casos, portanto, têm fundamentos diferentes: em Campo Grande, houve alteração da Categoria de Risco relacionada ao estado de conservação; em Maravilhas II, a medida decorreu de pendências na atualização da documentação exigida pela ANM.
O sistema público da agência permite consultar a classificação atualizada das barragens, localização e histórico de informações de segurança.





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