Mensagem por trás da canção "Não Chores Mais", de Gilberto Gil

“Não Chores Mais”, de Gilberto Gil, é uma adaptação da canção de Bob Marley, “No Woman no Cry”. A melodia original foi lançada pelo jamaicano em 1966. Já a versão de Gil foi lançada oito anos depois. Em 1979, o baiano lançou o disco “Realce”, em que além de lançar “Não Chores Mais”, ele também gravou a canção “Realce”, que inclusive foi executada em 1980 por Earth, Wind and Fire, juntamente com Gil no Maracanãzinho (RJ).
Em sua obra, Gil aborda questões profundas da sociedade brasileira que vão desde a cultura à certos fatos que ocorreram durante a Ditadura Militar.
Bem que eu me lembro, da gente sentado ali, na grama do aterro sob o Sol“, nesse trecho o autor expõe um pouco a cultura do seu povo, em especial da Bahia, o primeiro estado do país, rico em diversidade cultural. Interpretados de forma errônea, principalmente por determinadas pessoas do Sul e Sudeste do Brasil, o povo baiano é observador, e diferente das pessoas que vivem em São Paulo, por exemplo, além de produzirem trabalho, o baiano produz também arte, isso explica a quantidade de artistas naturais do estado. Para produzir arte é necessário que haja momentos de reflexão.
Ob-observando hipócritas, disfarçados, rondando ao redor“. Aqui Gilberto Gil entra em questões que aconteciam durante o regime Militar no Brasil, marcado entre 1 de abril de 1964 e 15 de março de 1985. Nesse momento os artistas brasileiros encontravam dificuldades em expor suas obras, pois nem tudo poderia ser dito. Não tínhamos a liberdade de expressão dos tempos atuais e por isso os compositores se manifestavam contra o sistema opressor nas entrelinhas de suas canções. Outra curiosidade do período é que muitas pessoas apoiavam a Ditadura Militar, incluindo artistas, que em troca da liberdade, entregavam outros amigos para o Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), órgão responsável pela inteligência e repressão do governo brasileiro durante o regime. Na época a maioria dos artistas brasileiros eram considerados inimigos do governo.
E Gil continua fortalecendo sua observação com detalhes. Em “Amigos presos, amigos sumindo assim, pra nunca mais, tais recordações, retratos do mal em si, melhor é deixar pra trás“, o compositor explicita coisas que aconteciam ao seu redor, pois durante a Ditadura Militar muitas pessoas sumiram, são os chamados “Desaparecidos políticos no Brasil”. Em 2014, a Comissão Nacional da Verdade (CNV) apurou que houve 434 mortes e desaparecimentos de vítimas da Ditadura Militar no país. Entre essas pessoas, 210 são desaparecidas. Os desaparecidos políticos eram pessoas cujo o paradeiro era desconhecido e a morte é presumidamente culpa do estado brasileiro ou de terceiros que o fizeram apoiados pelo governo.
Já na segunda estrofe da música, Gil pega mais leve, afinal, trata-se de um reggae. “Bem que eu me lembro, da gente sentado ali, na grama do aterro, sob o céu, ob-observando estrelas, junto à fogueirinha de papel“. Embora ainda estivesse na Ditadura Militar, o baiano tinha boas lembranças de grupos que se uniam, organizando-se contra o sistema, muitas vezes faziam fogueiras para se protegerem do frio. Era como uma comunidade, em que os envolvidos dividiam tudo, incluindo a comida, “Quentar o frio, requentar o pão”.
Contudo, Gil não perdia a esperança em dias melhores: “Eu sei a barra de viver, mas, se Deus quiser, tudo, tudo, tudo vai dar pé, não chores mais“.
A versão mais atualizada da música “Não Chores Mais” foi interpretada pelo grupo de raggae brasileiro Natiruts em parceria com Gilberto Gil, confira:

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