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terça-feira, 31 janeiro 2023

Júlio Dash
Júlio Dash
Júlio Roberto Gomes é psicanalista e terapeuta analítico Jungiano, especializado em Hipnose e Inteligência Social, atuando na área há quase 5 anos. Tem como formação base o curso de Tecnologia em Recursos Humanos e estudos a parte de Criminalística.

Júlio Dash: “É hora de deixar ir”

Ouvi essa estória há alguns anos e vez ou outra a compartilho com algum paciente de terapia pra fazê-los refletir sobre algo. Hoje quero compartilhar com você.

Há alguns séculos atrás, um monge estava viajando pelas montanhas, um jovem queria seguir seus passos e passou a acompanha-lo voluntariamente, eles mal se falavam, o monge era muito observador, mas de poucas palavras.

Em uma tarde chegaram até um rio largo, tinha pouco mais de meio metro de profundidade, era calmo, mas precisaria de equilíbrio para atravessá-lo sem se deixar levar pela correnteza.

Enquanto procurava o melhor lugar para fazer a travessia, o monge percebe uma senhora de pouca força que deseja atravessar, mas não é capaz. Ele vai em sua direção, entra no rio e para em sua frente, dando sinal para que suba em suas costas. Ela assim o faz, atravessa o rio tranquilamente em silêncio, o jovem os acompanha, também sem dizer nada.

– Leia também: Melhor ser Sísifo do que Sósifu

Ao chegar ao outro lado, o monge a põe no chão e imediatamente, sem lhe dizer nada, nem ao menos um olhar de gratidão, ela segue o caminho dela. O jovem vê o monge sentado a beira do rio exausto pelo esforço, mas nada diz. Então o jovem lhe dirige algumas palavras:

– Como algumas pessoas são ingratas, não é?

O monge permanece em silencio, observando o rio. O jovem continua:

– O senhor lhe fez um favor, sem pedir nada em troca e nem mesmo um sorriso de agradecimento ela lhe deu.

O monge escuta, mas nada responde. O jovem percebendo que não haverá conversa, se cala, mas seus pensamentos a respeito da atitude da senhora continuam. A noite vem, eles param em um local para dormir, enquanto ajeita a grama o jovem volta ao assunto:

– Aquela senhora estaria até agora na beira do rio sem saber como atravessar se não fosse o senhor. Imagino como ela poderá dormir em paz sem ao menos ter lhe agradecido.

O monge come um pedaço de pão, mas nada diz ao jovem sobre o assunto, lhe estende o pão, ele pega, agradece e diz:

– É tão fácil agradecer. Ela realmente me irritou, que pessoa mais desagradável ela deve ser.

O monge se ajeita e dorme. No dia seguinte, aos primeiros raios de sol acordam, seguem viagem. Ao longo do dia o jovem retorna ao assunto algumas vezes, sem que o monge lhe responda qualquer palavra. Isso se repete por alguns dias, até que no anoitecer do sétimo dia ao falar novamente sobre a velha, o monge com muita calma se vira para o jovem e lhe diz as primeiras palavras desde o ocorrido:

– Meu jovem, eu carreguei aquela senhora por 10 minutos, você a está carregando há uma semana, até quando vai leva-la conosco nessa viagem? Ela já seguiu o caminho dela, está na hora de você deixa-la ir.

O jovem não soube responder, ficou em silêncio pensando sobre aquilo o resto da noite e nos dias seguintes até que finalmente compreendeu e nunca mais falou ou pensou sobre o assunto.

Acredito que você, assim como eu e todos os outros seres humanos do planeta já fizemos algo de bom pra alguém e não tivemos reconhecimento, talvez mais de uma vez e talvez mais de uma vez pra mesma pessoa.

O desapego é algo que funciona bem em frases pro instagram e que parece ser dito com muita frequência por pessoas que fingem ser perfeitas, a gente costuma chamar elas de hipócritas, mas não na frente delas, o que faz da gente hipócritas também, ou talvez apenas não vale a pena falar nada.

A questão é que em alguns casos, carregar a dor ou o sentimento de ingratidão de alguém conosco nos atrapalha tanto em outras coisas que perdemos mil vezes mais do que se só deixássemos ir.

É um ciclo, quanto mais você se dedica aquele pensamento e sentimento, mais ele constrói casa em você. O segredo então é se livrar dele o mais rápido possível, mas se não der, se demorar demais, se você já está carregando algo há muito tempo, talvez devesse jogar fora, mudar a forma como enxerga isso, talvez até mesmo se sentir agradecido por isso ter ocorrido. É um aprendizado e aprendizados tem um custo.

Eu particularmente penso “aconteceu assim pra não acontecer pior lá na frente”.

Assim me sinto mal, obvio, mas é por pouco tempo, logo assimilo o conhecimento e no futuro evito cair no padrão ou na conversa fiada de novo.

Sei que alguns pregam o perdão, que dizem que não vale a pena perder a fé nas pessoas por causa de uma ou duas, mas aposto que essas pessoas trancam as casas e os carros delas, olham pros dois lados antes de atravessar a rua não deixando apenas a segurança delas na mão dos motoristas e que provavelmente não postam o numero do cartão de credito e a senha nas redes sociais, aliás, provavelmente elas tem uma ou duas pessoas bloqueadas nas redes sociais. Hipócritas, eu disse.

Lembre-se, você pode estar com raiva, pode estar com qualquer sentimento, mas você não é isso, você não é raiva, você apenas a tem e pode deixar de ter, só precisa aprender como. No mais, vale a pena ser uma boa pessoa, só não seja trouxa.

* Esse texto é um artigo de opinião do colunista e pode não representar a posição do portal Mais Minas sobre o assunto.

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