Como surgiu o jejum e abstinência de carne durante a quaresma?

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O jejum e a abstinência são práticas muito comuns no período da Quaresma, o qual se inicia na quarta-feira de cinzas. Conforme as orientações da Igreja, o jejum e a abstinência são obrigatórios na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira da Paixão.

O jejum é uma forma de penitência que consiste na privação de alimentos, indicada para aqueles que se encontram gozando de plena saúde. Para tal prática, a orientação tradicional da Igreja católica é que se faça apenas uma refeição completa durante o dia. Existe ainda a possibilidade de que os fiéis cumpram o preceito do jejum privando-se em quantidade ou qualidade daqueles alimentos ou bebidas que são habitualmente consumidos e constituem verdadeira privação ou penitência conforme gostos pessoais.

Já a abstinência, consiste na escolha de uma alimentação simples e pobre. A tradição da Igreja indica a abstenção de carne, mas esta poderá ser substituída pela privação de outros alimentos e bebidas, sobretudo os mais requintados e caros ou da especial preferência de cada um, tendo em vista que a ideia principal é de que se renuncie aos luxos e desperdícios. A opção pela abstinência de carne é proposta devido ao seu consumo ser comum nas refeições da maioria das pessoas.

A prática do jejum é uma tradição que se consolidou na Idade Média, época em que pessoas humildes raramente provavam carne. Nessa época, a carne vermelha era consumida apenas em banquetes e nas residências dos nobres, tendo, dessa forma, adquirido simbologia de gula e consequentemente de pecado. Sendo assim, os fiéis eram orientados pela Igreja a comerem carne à vontade antes da quaresma. Assim, os festejos pagãos realizados como forma de comemoração às boas colheitas e como louvor aos deuses foram incorporados ao calendário da Igreja católica originando os banquetes conhecidos como “carnem vale” ou “adeus à carne”, o que hoje conhecemos como Carnaval, que são festividades que marcam os últimos dias de “liberdade” antes do período de 40 dias de penitência e restrições que precedem a Páscoa, no qual o consumo de carne fica proibido.

O peixe não chegou a entrar na lista da abstinência devido ao fato de que, naquela época, esse item correspondia em um prato irrelevante nos banquetes medievais. Com o passar dos séculos, a carne deixou de estar presente somente nos grandes banquetes e perdeu seu caráter simbólico de pecado.

É importante frisar que o jejum não se trata de um regime ou uma dieta, mas de uma forma de oração e penitência, sendo uma prática muito mais interior do que exterior. É uma forma de superarmos os ressentimentos, as mágoas e criar maior intimidade com o nosso próprio eu, a fim de que consigamos lidar com empatia com o outro; pois de nada adianta nos privarmos da ingestão de algum produto alimentar como forma de penitência e conversão, se nutrirmos pensamentos e sentimentos negativos sobre nós mesmos e sobre os outros. Conforme orientado pelo Papa Francisco, o jejum deve ser coerente: deve servir como forma de ajudar os outros. O verdadeiro jejum consiste em praticar a justiça e sobretudo o amor ao próximo nas atitudes do dia a dia e não apenas na simples abstenção do consumo de alimentos.

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