O coração do barroco mineiro está ganhando um novo filtro. Onde antes predominavam os roteiros turísticos puramente históricos ou didáticos, agora também atrai um público que busca transformar a história em experiência visual. Uma pesquisa de fevereiro de 2025 realizada pelas Secretarias de Cultura e Turismo e de Desenvolvimento Econômico de Ouro Preto revela detalhes interessantes sobre o perfil de quem visita a cidade. Segundo os dados, a faixa etária predominante está entre 21 e 30 anos e 59,37% dos visitantes são mulheres. Além disso, esse público é composto em quase 70% por jovens com ensino superior completo ou em curso.
Essa descoberta destaca a crescente importância desse público para o turismo local, que une patrimônio histórico, cultura e novas tendências da geração Z. Minas Gerais, que, segundo o PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), é o segundo maior destino turístico do país, parece receber jovens turistas que buscam algo que vá além da contemplação passiva.
A estética do ‘‘viral’’
Para esse novo modelo de viajantes, Ouro Preto vai mais além de ser uma cidade histórica; acaba tornando-se também um cenário. O termo “instagramável”, que define lugares projetados ou naturalmente propícios para fotografias e vídeos que geram engajamento nas redes sociais, tornou-se, para a nova geração de jovens, o critério de desempate na hora de escolher um destino. Diferente das anteriores, a Geração Z consome a história de forma visual e fragmentada. O interesse não só reside no conhecimento advindo de uma igreja histórica, mas também na simetria de sua fachada ou na luz que incide sobre os detalhes em ouro de um altar, ideais para um Reels ou um vídeo curto. Ouro Preto, com suas características emblemáticas, é comumente descrita nas plataformas como uma cidade que “parece ter saído de um filme”, alimentando uma comunidade digital engajada.
Criar e compartilhar
A rede social de vídeos curtos, o TikTok, tornou-se o novo guia de viagens. Vídeos que ensinam “como fazer um bate-volta de BH para Ouro Preto” ou que revelam “segredos históricos das igrejas” viralizam com facilidade, alcançando entre 100 mil e 1 milhão de visualizações. Conteúdos que levam a hashtag “Ouro Preto” viralizam e fortalecem a imagem da cidade como destino jovem e cultural.
Essa movimentação digital supre a carência de canais oficiais: a pesquisa da prefeitura apontou que apenas 21,53% dos turistas seguem o perfil oficial de turismo da cidade. Isso significa que a fama atual de Ouro Preto é construída de forma orgânica, no “boca a boca” digital, onde um vídeo de um café esteticamente impactante em um casarão antigo pode valer tanto (ou até mais) quanto um acervo de museu, no que diz respeito à motivações turísticas.
Guia de Experiências: o que pode ir para o seu “feed”?
Se a rigidez estética é fundamental na contemporaneidade, visando o viral no mundo digital, Ouro Preto é, de fato, um dos destinos ideais para produzir conteúdo. Selecionamos locais da cidade que podem ser potenciais favoritos dos jovens, unindo valor histórico a um visual deslumbrante:

Igreja São Francisco de Assis: seguindo a lógica da trend dos ‘‘tetos das igrejas’’ (que acontecem também em igrejas na Europa), a pintura do Mestre Ataíde é o atrativo ideal. A obra é uma glorificação de Nossa Senhora da Porciúncula cercada de anjos músicos e cobre todo o salão principal da igreja até o altar.

Mirante do Morro São Sebastião: é o local preferido para vídeos panorâmicos e fotos do pôr do sol, pelo seu fácil acesso. Oferece uma visão mais clássica de todo o Centro Histórico.

Casa de Gonzaga: as sacadas do casarão do poeta e inconfidente oferecem um dos ângulos mais cobiçados, com vista para o Pico do Itacolomi e a Feirinha de Pedra Sabão. É o local perfeito para conhecer a narrativa romântica de Marília e Dirceu somada a estética perfeita para fotos e vídeos.

Parque Horto dos Contos: Um refúgio verde que atravessa o centro. Suas trilhas e a preservação da Mata Atlântica oferecem um contraste visual vibrante com o ocre e o branco das construções urbanas, sendo ideal para conteúdos que buscam uma pegada mais “lifestyle” e naturalista.
Esses pontos combinam o valor histórico com o apelo estético procurado pelos jovens visitantes, garantindo experiências memoráveis para compartilhar nas redes.
Ouro Preto se reafirma como destino que alia tradição e modernidade, atraindo cada vez mais um público jovem, conectado, e que valoriza não só o patrimônio, mas a experiência visual e social que o turismo pode proporcionar. No fim, a antiga Vila Rica prova que não precisa mudar sua essência para continuar relevante. Os filtros estão sendo apenas trocados para alguns: das lentes de aumento dos historiadores para as lentes de alta definição dos celulares.







