Há exatamente um ano, em 23 de maio de 2025, o mundo se despedia de Sebastião Salgado, um dos fotógrafos documentais mais renomados do planeta. Mineiro de Aimorés, no Vale do Rio Doce, ele morreu aos 81 anos, em Neuilly-sur-Seine, na França, após mais de cinco décadas dedicadas a registrar guerras, migrações, trabalho humano, fome, destruição ambiental e populações invisibilizadas.
Ao longo da carreira, Salgado percorreu mais de 120 países e construiu uma obra marcada pelo preto e branco, pela escala monumental das imagens e pela tentativa de compreender os impactos do capitalismo, da exploração humana e da degradação ambiental.
Hoje o mineiro é reconhecido como um dos principais nomes do fotojornalismo contemporâneo e uma referência mundial na documentação das transformações sociais e ambientais do século XX e início do XXI.

Como um economista se tornou fotógrafo
Antes de se dedicar à fotografia, Sebastião Salgado era economista. Formado pela Universidade de São Paulo, também concluiu doutorado em Economia na Universidade de Paris. Durante parte da juventude, trabalhou na Organização Internacional do Café e participou de missões ligadas ao Banco Mundial na África.
Foi justamente durante essas viagens que começou a fotografar.
A experiência na economia influenciou diretamente sua forma de enxergar o mundo. Em vez de tratar crises humanitárias como episódios isolados, Salgado buscava compreender os sistemas econômicos e sociais por trás da pobreza, das migrações e do trabalho extremo.
Os projetos costumavam durar anos.
Séries como “Workers” e “Êxodos” foram produzidas ao longo de quase uma década de viagens, convivência e documentação em diferentes continentes.
Uma das imagens mais conhecidas da carreira surgiu na Serra Pelada, no Pará, onde milhares de homens trabalhavam diariamente na extração manual de ouro em condições precárias.
Ao descrever o local, Salgado afirmou ter sentido como se estivesse “viajando para o amanhecer dos tempos”.
Por que Sebastião Salgado fotografava em preto e branco

Em uma era marcada pela popularização da fotografia colorida, Sebastião Salgado manteve o preto e branco como escolha estética e filosófica.
Para ele, a cor desviava o olhar do essencial.
O fotógrafo defendia que a ausência de cores aproximava o observador da estrutura humana da cena, da luz, das expressões e da relação entre pessoas e ambiente.
Essa opção ajudou a transformar suas imagens em marcas visuais reconhecidas internacionalmente.
As fotografias combinavam grandes contrastes de luz, enquadramentos amplos e composição cuidadosa, aproximando o fotojornalismo de uma linguagem artística sem abandonar o caráter documental.
As críticas sobre a estética da dor
O trabalho de Salgado também gerou debates intensos ao longo das últimas décadas.
Críticos como Susan Sontag, Ingrid Sischy e Jean-François Chevrier afirmavam que o fotógrafo transformava sofrimento humano em imagens excessivamente belas, criando uma espécie de “estética da miséria”.
Os críticos argumentavam que a composição sofisticada poderia anestesiar o público diante da tragédia.
Sebastião Salgado respondia afirmando que pessoas pobres também deveriam ser retratadas com dignidade e monumentalidade.
“Por que o mundo pobre deveria ser mais feio que o mundo rico? A luz aqui é a mesma de lá. A dignidade aqui é a mesma de lá”, declarou em uma de suas respostas mais conhecidas às críticas.
O escritor uruguaio Eduardo Galeano esteve entre os intelectuais que defenderam a obra do fotógrafo brasileiro, interpretando suas imagens como um gesto de solidariedade e testemunho histórico.
O genocídio de Ruanda mudou sua vida
Nos anos 1990, Sebastião Salgado viveu um dos períodos mais difíceis da carreira.
Ao documentar o genocídio em Ruanda, testemunhou massacres, deslocamentos forçados e cenas de violência extrema que provocaram um profundo desgaste psicológico.
Segundo relatos posteriores, o fotógrafo afirmou ter perdido a fé na humanidade após aquele período.
Ao retornar para Minas Gerais, encontrou a fazenda da família degradada pelo desmatamento e pela erosão do solo. A paisagem devastada levou Salgado e sua esposa, Lélia Wanick Salgado, a iniciarem um dos maiores projetos ambientais privados do país.
Nascia o Instituto Terra.
O Instituto Terra e a recuperação da Mata Atlântica
Criado pelo casal em Minas Gerais, o Instituto Terra transformou uma área degradada em um grande projeto de reflorestamento da Mata Atlântica.
Mais de 4 milhões de mudas foram plantadas ao longo dos anos, permitindo a recuperação de centenas de espécies de árvores e de animais na região.
A iniciativa se tornou uma das faces mais conhecidas da atuação ambiental de Sebastião Salgado.
O fotógrafo passou a defender a recuperação de biomas brasileiros e a necessidade de reconexão entre humanidade e natureza, tema que também atravessou projetos como “Gênesis”, dedicado a registrar áreas preservadas do planeta.
A doença adquirida durante o trabalho
Durante as viagens do projeto “Gênesis”, Sebastião Salgado contraiu uma forma severa de malária na Indonésia, em 2010.
Segundo relatos divulgados posteriormente, a infecção comprometeu permanentemente sua medula óssea.
As complicações decorrentes da doença evoluíram para uma leucemia grave, apontada como causa de sua morte quinze anos depois.
A parceria com Lélia Wanick Salgado
Ao longo da carreira, Sebastião Salgado trabalhou ao lado da esposa, Lélia Wanick Salgado, responsável por parte importante da construção visual e institucional de seus projetos.
Ela participou da curadoria de exposições, da produção editorial de livros e da criação da agência Amazonas Images, fundada pelo casal após a saída da Magnum Photos.
Também esteve à frente da estruturação do Instituto Terra e participou da produção do documentário “O Sal da Terra”, indicado ao Oscar e dirigido por Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado.
O legado de Sebastião Salgado em tempos de inteligência artificial
Um ano após sua morte, o trabalho de Sebastião Salgado continua atravessando debates sobre fotografia, ética, memória e tecnologia.
Em um período marcado pela expansão de imagens geradas por inteligência artificial e pela circulação acelerada de conteúdo digital, a trajetória do fotógrafo brasileiro passou a ser frequentemente associada à ideia de “jornalismo lento”, baseado em convivência prolongada, presença física e documentação contínua.
Entre minas, desertos, florestas, campos de refugiados e aldeias indígenas, Sebastião Salgado construiu um dos maiores acervos visuais sobre o mundo contemporâneo.







