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Os intelectuais e A Revolução dos Bichos

A Revolução dos Bichos foi um livro escrito pelo inglês George Orwell e publicado em 1945, sendo uma das obras mais conhecidas do século XX.

Gustavo Henrique Sanvezzo 1 de outubro de 2021 às 19:34
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Estudante de Medicina na Universidade Estadual do Oeste do Paraná, procuro trazer informações e reflexões relevantes sobre ciência, conhecimento e cultura. Acredito que todo conhecimento importa, toda sabedoria integra e toda verdade liberta.

A Revolução dos Bichos foi um livro escrito pelo inglês George Orwell e publicado em 1945, sendo uma das obras mais conhecidas do século XX. A revolta levada a cabo pelos animais da Fazenda do Solar marca bem o espírito das diversas revoluções e golpes ocorridos ao longo do século passado: os princípios que iluminaram a revolta dos bichos merecem ser comparados às ideologias totalitárias que incendiaram, e incendeiam, muitas mentes com o entusiasmo revolucionário.

Neste texto, pretendo me ater a um aspecto interessantíssimo presente na história, e de profunda relevância para nosso momento atual: o papel dos intelectuais e formadores da opinião pública como sustentadores da tirania revolucionária. À propósito, ao longo destas linhas, pretendo expor meu ponto de um modo que até quem não tenha lido o livro possa compreender o que está escrito.

A revolução na fazenda e o intelectual:

A história começa na Fazenda do Solar – na verdade nunca sai dela – quando um velho porco de nome Major convoca todos os animais para uma reunião secreta. Nessa oportunidade, todos os seres em questão tomam contato com novas ideias, concebidas ao longo da vida pelo Major: são as ideias do Animalismo, uma ideologia que prega a libertação dos animais do julgo dos humanos, em outras palavras, que prega o fim da exploração. Como você, leitor, propagaria uma ideal assim tão nobre de modo a fazê-lo entrar nas mentes e nos corações de todos? O meu palpite é o de que você, talvez, escreveria um manifesto ou um panfleto, ou ainda escolheria dar conferências sobre a verdade descoberta. Bem, o Major foi mais esperto que isso! Para fazer uma ideologia política entrar na mente de todos, nada como introduzi-la na cultura – na arte, na música, na literatura; e assim procedeu o major, ensinando todos os animais a cantar uma canção chamada “Bichos da Inglaterra”, que condensava em si o sonho do paraíso terreno livre dos opressores humanos. Os bichos, praticamente todos, foram convencidos naquela reunião e nos dias que se seguiram a ela a lutar pelo novo ideal.

A revolução na Fazenda do Solar não tardou a ocorrer. E, após a derrubada dos senhores humanos, um novo governo foi estabelecido. A fazenda passou a se chamar agora Fazenda dos Bichos. Os porcos, os animais mais inteligentes, foram logo encarregados do governo de tudo, e, pouco a pouco, foram se transformando em tiranos opressivos. Estabeleceu-se a “suinocracia”!

Bem, se foram necessários meios intelectuais de propaganda revolucionária para estabelecer o novo regime, esses meios também foram necessários para mantê-lo. E aqui entra o personagem que mais importa para nossa discussão: o porco Papudo. Esse suíno peculiar manteve ao longo do livro um papel muito importante, toda vez que alguma medida do governo revolucionário dos porcos parecia injusta ou opressiva, o grande intelectual engajado estava lá, para justificá-la, para explicar as boas intenções escondidas por baixo da injustiça, para exaltar a perda da liberdade como algo positivo ou ainda para garantir a culpa de algum fracasso aos inimigos reacionários da revolução. O regime não erra, e o porco Papudo estava pronto para convencer a todos dessa verdade luminosa!

Chegamos a um ponto crucial de reflexão. Embora o termo não tenha sido usado no livro, não me resta dúvida alguma que o porco Papudo agia como um intelectual do regime. Essa palavra, intelectual, merece uma reflexão à parte. Considerando uma interpretação rigorosa, não me parece que o porco Papudo merecesse esse título; intelectual é sujeito que, usando da sua inteligência, esforça-se para perceber aspectos da realidade e tenta comunicá-los aos demais. O porco Papudo não estava preocupado com isso, talvez ele nem mesmo acreditasse nessa capacidade do intelecto suíno: compreender a realidade. O intelecto de papudo estava preocupado com outra coisa: alterar a realidade. Papudo não se importava em induzir os demais animais ao erro, toda vez que o bem do regime assim exigia. Essa noção de “verdade” decerto era alguma ideia que os humanos inventaram para impedir a emancipação animal- era coisa do explorador-, provavelmente ele se justificaria desse modo.

Aqui temos algo curioso sobre as ideias revolucionárias. Elas não funcionam sem um corpo de intelectuais engajados em justificar qualquer abuso cometido em nome do ideal. Para que o ditador vá adiante no cortejo da tirania, é necessário que os intelectuais vão mais à frente ainda, abrindo caminho, e atrás, limpando a sujeira. Todo mal na política precisa ser justificado, todo mal na política pode ser justificado.

E agora?

Não devemos conceber o trabalho do estudioso sério, que busca compreender a realidade e dedica longos anos nessa causa, como uma mera questão de justificação de interesses alheios. Muita gente gastou e gasta anos da própria vida debruçando-se sobre fenômenos e sobre coisas, tendo por objetivo unicamente a compreensão desses objetos de estudo. O que se deve abominar é o sujeito que, munido de um título acadêmico e de uma posição social, coloca-se a justificar violações da liberdade e da dignidade humana; e se esse sujeito o faz usando-se de dinheiro e de cargos público, o problema é ainda maior. O porco Papudo com que lidamos no mundo da cultura nem sempre defende as violações da liberdade abertamente; quando a opinião pública se encontra horrorizada por alguma barbárie cometida por um regime autoritário pelo qual ele nutre simpatia, o intelectual papudo coloca-se a elencar justificativas e motivos nobres para o agressor; se as pessoas não se convencem que o mal é bom, que ao menos elas creiam que o mal é justificável.  Por fim, a reflexão que a leitura desse livro tão interessante pode trazer é a de que os direitos a liberdade, a vida e a propriedade não podem ser entendidos como algo negociável. Uma violação é sempre uma violação, um roubo é sempre um roubo e uma violência é sempre uma violência, não importando se cometidos em nome de algum ideal nobre, seja ele verdadeiro ou não.