João Victor Pena
João Victor Pena
João Victor Pena é estudante de jornalismo na PUC Minas e articulista da coluna "Rima em Prosa", no portal Mais Minas.

Rima em Prosa #26: Em entrevista, Sain fala sobre “Slow Flow”, sua ligação com o streetwear e novos feats

Sain é um dos artistas que deram cara ao rap carioca nesta década. Seja em sua carreira solo, ou em grupo, o rapper contribuiu para a consolidação do trap no estado. Autor dos discos Dose de Adrenalina, de 2017, e Slow Flow, de 2019, ele é integrante do coletivo Pirâmide Perdida, que em 2016 lançou o álbum Pirâmide Perdida (Vol. 7). Junto de seus amigos, o músico trouxe diversos elementos que marcaram época na cena brasileira. Além de gírias e símbolos, influências de moda e comportamento no rap nacional. 

Hoje, em entrevista à Rima em Prosa, Sain fala sobre o impacto de Slow Flow em sua carreira, sua ligação com o streetwear, cultura hip-hop, seu feat com Don L, a volta do Start Rap, aniversário da Pirâmide Perdida e muito mais. Confira:

Slow Flow

MM: Segundo disco de sua carreira solo, Slow Flow acaba de completar um ano de existência. Em uma era onde o trap domina, Sain retorna com um disco muito mais puxado para clima dos anos 90, com beats clássicos e levadas mais calmas. Uma estética musical muito diferente do que estamos acostumados nos dias de hoje. O que te motivou a apostar nessa pegada, que vai na contramão da cena como um todo?

SA: Na real, acho que não foi nem uma aposta, foi mais uma satisfação artística que eu tava buscando. Eu cresci ouvindo isso. É o estilo musical que eu me apaixonei e que me fez ter vontade de fazer música. Eu acho que eu queria me sentir capaz de fazer um bagulho desse. Queria conseguir me expressar assim do jeito que eu queria. E nesse momento eu tinha os recursos pra isso, e aí fui atrás disso. 

MM: Como você avalia o impacto desta obra na sua carreira? Neste um ano que se passou, quais os principais frutos que você colheu deste trabalho?

SA: Cara, acho que esse álbum foi tipo um amadurecimento da minha parada. Acho que ele tá bem mais conceitual do que qualquer parada que eu fiz antes. Foi bem mais fundo nesse lado, ‘sacoé’? Acho que é isso. Veio um reconhecimento dessas pessoas que se ligam mais nessa linha. Acho que foi mais por aí assim, e pra mim deu certo à beça.

MM: Além de ter feito sucesso com o público, Slow Flow recebeu muitos elogios por conta de toda a estética do projeto e pequenos detalhes que vão desde a capa do álbum, até as rimas e os beats milimetricamente selecionados. Muita gente fala isso, mas gostaria de saber sua opinião: você se considera um rapper “classudo”? Por quê?

SA: Então, cara, acho que essa classe é muito do hip-hop mesmo, ‘sacoé’? Não é só rap, é um estilo de vida. E tudo isso tá ali dentro. A estética faz parte disso. O ritmo, o discurso… Tudo isso faz parte de uma parada. E eu tento dar atenção nesses detalhes. Acho que é o meu trabalho que vai ficar. É a importância que você dá nas suas obras. 

MM: Dentro do álbum, algo que está presente em grande parte das músicas são os scratches. Apesar de ser considerado um dos elementos mais clássicos do hip-hop, esse recurso dificilmente é visto nas músicas atuais. Você acredita que os scratches estão sendo um pouco deixados de lado ou isso é um processo natural das novas tendências?

SA: É, é meio complicado, na real, porque hoje em dia você usa outros equipamentos. O MC e o beatmaker… Não é mais comum você ter umas pick-ups ali. Então é isso. Scratch foi ficando meio que extinto, né? Aí é isso. Eu quis buscar essa parada. Isso faz parte do rap, sacoé? E precisava nas músicas. Mais do que qualquer coisa, eu fiz as músicas pensando nelas como que ficaria melhor. Como soaria melhor. E scratch faz parte daquilo ali. Seria outro disco se não tivessem eles!

Turnê 

MM: Quando pandemia de coronavírus explodiu, lá em março, você estava no meio da turnê de divulgação de Slow Flow. Como isso te afetou? 

SA: Exatamente. É complicado. Foi justamente quando a gente estava colocando o show na pista. E aí travou tudo, né, mano… É complicado você montar um trabalho, querer mostrar e não conseguir. Dá uma frustraçãozinha, mas é suave também. É a vida. Tem que aprender a lidar com as coisas que acontecem.

MM: No ano que vem, caso tudo esteja normalizado, você pretende retomar esses shows ou acha que o timing deles já passou?

SA: Cara, não sei se eu retorno esse show. Porque já tô fazendo mais músicas e outras paradas. Mas é uma parada que eu preciso mostrar ainda, então ele com certeza vai estar dentro de uma outra parada que eu vou lançar futuramente. Por que a gente fez pouco show dele, ‘sacoé’? As pessoas não viram o Slow Flow ao vivo, então ainda tem que levar ele aí. Tem que montar ele junto com as próximas coisas que eu tô fazendo. E é isso, botar a cabeça pra funcionar. 

Estilo e influências

MM: Um fator muito presente na carreira do Sain, é a sua ligação com a cultura streetwear. Roupas, acessórios e joias são algo comum dentro da cultura, mas você e os membros da Pirâmide Perdida trouxeram isso de uma forma muito forte em suas músicas. Até mesmo por conta da produção de produtos exclusivos para turnês e para a loja do grupo. De que forma você linka o seu estilo de vestir com as suas músicas? Como um influencia o outro?

SA: Era aquilo que eu tava falando, né, cara. O hip-hop não é só o rap. Não é só ali a música. Isso tudo faz parte, ‘sacoé’? E é isso. A paixão vem disso aí tudo. Pra me expressar, eu uso todas essas paradas. A música, a estética, as roupas… E a roupa é um negócio que, querendo ou não, é muito presente no rap. É um bagulho de afirmação, do jeito que você se veste… Não de questão financeira, mas questão de noção de estilo, de saber chegar, ‘sacoé’? Acho que isso é muito da arte também. Então tinha que estar junto assim. Um influencia o outro. 

MM: Grande parte dos membros da Bloco Sete tem patrocínio e uma forte ligação com a Adidas. Vocês foram um dos primeiros no rap nacional a traçar uma parceria assim, e é algo que dura até os dias atuais. Qual foi o impacto desse vínculo na carreira de vocês?

SA: Cara, eu vi uma entrevista do Kanye West falando justamente sobre isso. Que ele comparou meio que a Adidas com a Família Médici e o renascimento ali que eles apoiavam, ‘sacoé’? Os artistas, a arquitetura, a pintura e tudo mais. Acho que é isso. Fazer arte não é um negócio barato, e a Adidas tem uma relação muito maneira com a gente. Da gente fazer arte e da gente não virar só uma vitrine ali do produto, mas sim, encaixar no nosso trabalho. Justamente porque a gente tem toda essa estética, tem toda essa parada. Então é um bagulho que funciona legal e tem ajudado a fazer a arte que a gente a precisa. A ideia é essa. 

MM: Você acredita que a Pirâmide Perdida influenciou na estética e comportamento de outros rappers da cena? De que forma?

SA: Cara, sem soar prepotente assim, mas eu acho que a gente tem uma grande parcela nisso aí. É isso. A gente tem essa linha muito forte no que a gente fala e, querendo ou não, vai influenciando. E acho isso maneiro. Na real, fico felizão. 

Pirâmide Perdida

MM: Falando em Pirâmide Perdida, o coletivo recém completou cinco anos de idade. Vocês pretendem fazer algo para comemorar esta marca? Há chances de vermos um show drive-in ou uma live do grupo?

SA: Cara, a gente tá querendo muito fazer, ‘mermo’. É que tá todo mundo com projeto, ‘sacoé’? E entrando na pandemia meio que deu essa chacoalhada. A gente tá entendendo como seguir com o projeto de cada um e encaixar isso aí também no meio. Mas é uma ideia. É um projeto, sim. Se der tudo certo, daqui a pouco taí rodando. 

MM: Em uma cena onde vemos tantos grupos e coletivos se desfazendo, qual é o segredo da Pirâmide durar tanto tempo?

SA: Cara, acho que não tem segredo, na real. A gente não fez o bagulho visando o lucro, visando o dinheiro… A gente se juntou porque era amigo, queria fazer som junto. A gente foi tentando se estruturar para isso. E a ideia surgiu daí. Acho que é mais por isso assim. Porque não é nada forçado. Todo mundo tá ali porque quer… todo mundo pela amizade, pela vontade, antes de qualquer cifra. 

Relação familiar com a música

MM: Em sua visão, ter crescido num lar musical te fez desenvolver sua musicalidade mais cedo? Quando jovem, você já tinha certeza que queria seguir nesse caminho?

SA: Não, com certeza. Com certeza. Estar ligado a música desde cedo te desperta uma parada. Não sei o que, mas te motiva ali (risos)! Ainda mais eu sendo filho do Marcelo e, pô, conhecendo a parada desde cedo, indo pras festas de rap desde cedo… Isso com certeza vai botando uma sementinha ali na cabeça da pessoa. 

MM: Um dos grandes méritos do Sain, é ter criado sua própria identidade. Mesmo sendo filho de um músico com a carreira consolidada, você conseguiu emplacar seu trabalho e ser conhecido por conta dele, e não apenas por ser filho do Marcelo D2. No início, isso te preocupava? Você temia acabar na sombra do seu pai?

SA: Assim… Preocupar, difícil falar que não preocupa, por que tem um peso. Tem uma barra lá no alto pra você chegar. Mas eu fiz isso muito mais pra me satisfazer, do que pra qualquer outra pessoa. Eu fazia minhas músicas pros meus amigos, tá ligado? Acho que minha maior preocupação é essa, então é isso que me deixa mais leve em relação à isso. Não que eu não me preocupe, mas isso não é o que pesa mais na balança. 

Parceria com Don L

MM: Recentemente, você esteve presente no disco Febre Amarela, do produtor WillsBife. Neste álbum, você pôde cantar na faixa Desejos, que também contou com Don L. Este foi o primeiro feat de vocês dois. O que achou do resultado desta música? Podemos sonhar uma nova parceria de Don L e Sain para o futuro?

SA: Porra… isso foi um sonho! Se eu te contar a história, mano… Eu não usava um e-mail que tinha em alguma parada minha, não lembro aonde, e aí o Don L achou esse e-mail e me mandou um beat para fazer um som já há muito tempo atrás. Um som que até já saiu. E eu num vi esse e-mail, tá ligado? Aí eu nem vi o bagulho. Só fui ver quando a música já tinha saído. Fiquei tristão pra caralho, porque ele é um dos MC’s que eu mais sigo no Brasil. Exatamente por tudo… Pela estética, pelo discurso, pelo ritmo das músicas, os flows… E, pô, eu mesmo já fiz várias citações nas minhas rimas sobre ele. E a ideia é fazer um som mais pra frente também. Ele é um cara que, além de músico, eu admiro pessoalmente, então a ideia é ter mais músicas aí pra frente.  

Novo feat com Qxó e volta do Start

MM: Outra colaboração recente sua, foi na faixa Piei Brotei, que fez parte de Peruana, o novo EP do Qxó. Essa música atraiu bastante olhares e fez muitos fãs criarem teorias de uma possível volta do Start Rap. O que achou da repercussão da faixa? 

SA: Cara, eu fiquei muito feliz! Os moleque são meus parceiros até hoje, ‘sacoé’? Então é muito maneiro a gente estar junto, independente de qualquer coisa que seja. Ainda mais com o Start, porque, porra, é um saudosismo foda! Uma época irada das nossas vidas! A gente era novinho… rodando o Brasil, tá ligado? É muito irado lembrar disso tudo e ver que a rapaziada também lembra. Ver que a gente marcou uma parada. É bom demais, pô!

MM: Os estão certos em criar expectativa ou é algo que ainda é cedo pra sonhar?

SA: Cara, a gente tem se reunido e é isso. Todo mundo ainda faz música. Provavelmente vai sair música nossa junto. Mas é isso, tamo pensando… tamo entendendo qual vai ser…

Rima em Prosa é a coluna especializada em rap do Mais Minas. Nela, são publicadas notícias, matérias e entrevistas relacionadas à tudo de principal que tem ocorrido no rap nacional. Caso tenha gostado da entrevista com o KL Jay, recomendamos as nossas matérias com Kamau, Don L e Rashid.

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