A História de Luiz, e o riso da pobreza

A História de Luiz, e o riso da pobreza
Lula durante as greves de metalúrgicos no ABC em 1979 (Foto: Carta Capital)

No dia de hoje vamos contar uma história, a história de Luiz. Ele nasceu na Pernambuco de 1945, no distrito de Caetés, o menino é o sétimo filho de Dona Lindu. Enfrentando a pobreza e a forte seca que castigava o nordeste, o marido de Dona Lindu partiu do sertão pernambucano rumo ao Estado de São Paulo que passava por forte industrialização. Ele saiu para buscar condições melhores de vida, cinco anos antes do nascimento de Luiz. Essa escolha mudaria para sempre os rumos da vida do nosso protagonista.

Quando o marido decidiu fazer uma visita em casa alguns anos depois de sua partida, no retorno a São Paulo, o homem levou um de seus filhos para capital paulista, o Jaime. Em dezembro de 1952 o menino pregou uma peça no pai. O menino era alfabetizado e o pai não, quando o homem pediu ao filho para que mandasse uma carta para a mãe, ele mudou as palavras e disse que a mulher deveria vender o pouco dos pertences que tinha e partir de Caetés com os filhos para São Paulo. Mãe e filhos se apertaram em um pau de arara e partiram rumo ao sudeste, uma viagem que durou 13 dias.

Ao longo do tempo a relação de Dona Lindu com o marido ficou complicada e depois de uma agressão ela saiu de casa com os meninos. Dona Lindu ensinou a todos os filhos o valor do trabalho. Desde cedo a meninada trabalhava para ajudar a mãe. O pequeno Luiz trabalhou como ambulante, engraxate, officeboy. O menino, agora adolescente, teve a oportunidade de estudar no SENAI, Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, onde aprendeu a profissão de torneiro mecânico.

Assumindo boa parte das despesas da casa. Aos dezoito anos, o jovem Luiz trabalhava muito em uma fábrica, trabalhando quase doze horas por dia, acumulando muitas horas-extras. Em uma noite de trabalho extra, por descuido de um colega de trabalho, Luiz sofre um acidente e perde o dedo mínimo da mão esquerda. Aos longo dos anos de trabalho, passando por algumas fábricas, Luiz começa a se envolver com o movimento sindical. Com habilidade em negociação, Luiz se destaca na liderança dos sindicatos e movimenta grandes greves na área do ABC paulista, região da cidade de São Paulo rodeada de grandes fábricas na área da metalurgia.

No final da década de 70, o movimento sindicalista se fortalece e ganham destaques nacionais. Luiz é obrigado a buscar negociações em Brasília e sente a necessidade da criação de um partido político que represente a classe trabalhadora e funda em 1980 o Partido dos Trabalhadores. Nosso personagem deixa de ser apenas o Luiz, para se transformar em Lula. A partir daí acredito que todo mundo conhece o resto da história, Luiz seria eleito deputado Federal por São Paulo, e perderia três eleições para o maior cargo do executivo, até se tornar presidente da república e governar por dois mandatos, no início dos anos 2000.

Em janeiro de 2018 Lula é condenado a 12 anos de prisão. A princípio eu pretendia seguir como vários outros colunistas e palpitar sobre o julgamento no TRF-4, mas além de saber que já existe conteúdo suficiente sobre por aí, e escritos por pessoas mais capacitadas do que eu, acabei mudando o enfoque do texto depois de que vi o seguinte meme no facebook: 

Provavelmente, em alguns momentos nos comentários deste texto, os leitores que odeiam Lula irão se enfurecer. O que me incomoda nesse meme não é a ofensa ao ex-presidente, ele não precisa de defesa para isso. Veja bem leitor, o Brasil possui 11,8 milhões de pessoas analfabetas, 11,8 milhões de pessoas que não sabem ler e escrever, imagine leitor, como deve difícil viver nessas condições em uma sociedade que é tão visual. Outro dado curioso é que 27% da população brasileira são de analfabetos funcionais. São pessoas que aprenderam a ler e a escrever, mas não conseguem compreender o que é dito no texto. Ao contrário do que diz o meme, Lula escreve e interpreta muito bem os textos que lê, mas esses são números de um país ainda muito deficiente em várias coisas.

Na proposta inicial desse texto, eu procurava tentar entender, como um sujeito causa tanta mobilidade em uma sociedade. De um lado milhares de pessoas que defendem e o admiram e do outro pessoas que acreditam com certeza na corrupção de Lula. Eu queria entender como uma pessoa pode mover tanta inquietação em questões tão opostas. Percebi que são várias as respostas. Uma delas é que na minha opinião nos fizeram acreditar que pobreza é defeito e não uma condição social. Nos fizeram acreditar que escrever errado é motivo de deboche e não uma deficiência do nosso sistema de educação. São milhares de páginas no Facebook e na internet humilhando pessoas de baixa renda. De pouco estudo. E são essas pessoas que mantem esse país funcionando. E sabe outra coisa que me incomoda? Michel Temer ta aí, e nunca apareceu, pelo menos pra mim, nenhum meme tentando desqualificá-lo pela origem da sua condição social. Afinal, Temer tem curso superior, na área do direito, e fala aquelas mesóclises que ninguém entende. Todo mundo quer melhorar de vida e ter uma condição de vida melhor. Todo mundo quer ter dinheiro, mas empatia com outro ninguém quer.

Cheguei ao final do texto e ainda não entendo o que é que o Lula tem que causa tanto alvoroço. Tenho facilidade para entender os que o defendem. É de se admirar que o menino Luiz que nasceu lá no interior de Pernambuco, em uma época de extrema pobreza, tenha conseguido alcançar o maior posto de comando do país. No entanto, tenho mais dificuldade para entender o lado que odeia o Luiz. Ninguém é obrigado a gostar de ninguém, mas de onde vem esse ódio? Tendo a acreditar que um dos motivos é essa nossa mania de achar que um diploma torna as pessoas mais qualificadas. Não. O diploma te faz desenvolver competências. Somos pessoas diferentes e de inteligências diferentes. Minha avó, por exemplo, é dona de uma inteligência imensa, e ela estudou apenas até quarta série. Contínuo com minhas inquietações, quando ainda vamos presenciar muitas manifestações sobre o Lula. Luiz continua sendo protagonista da nossa história.

Coluna EU POLÍTICO
Coluna articulada por Patrick de Araújo

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