A Quaresma é o período de quarenta dias que antecede a principal festa do cristianismo: a Páscoa. O período, oficializado pela Igreja Católica no Concílio de Niceia (325 d.C.), estende-se da Quarta-feira de Cinzas até o início da chamada Ceia do Senhor, na Quinta-feira Santa. É vivida como um tempo de preparação, conversão e reflexão sobre a ressurreição de Jesus Cristo. Mas para quem vive em cidades históricas como Ouro Preto e Mariana, ou nos pequenos distritos do interior de Minas, nesse período, para além das tradições cristãs, habita o silêncio das ruas e as sombras das lendas.
Quaresma deriva do latim quadragesima dies, que significa quadragésimo dia, e carrega um simbolismo numérico fundamental nas Escrituras. O número quarenta remete a episódios de provação e purificação, como os quarenta dias do Dilúvio na arca de Noé, os quarenta anos do povo de Israel no deserto e, principalmente, o retiro de quarenta dias e quarenta noites de Jesus no deserto antes do início de seu ministério público.
Na disciplina da Igreja Católica, a Quaresma é sustentada por três pilares espirituais: oração, jejum e caridade. A oração é intensificada por meio da leitura da Sagrada Escritura, a Bíblia, e de momentos de silêncio contemplativo. O jejum, por sua vez, educa o fiel a partir da abstinência, permitindo uma experiência de privação que pretende abrir o coração para a caridade. O Código de Direito Canônico estabelece normas mínimas para este tempo, como o jejum obrigatório na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa para fiéis entre 18 e 59 anos, além da abstinência de carne às sextas-feiras a partir dos 14 anos. A liturgia reflete esse tom penitencial com o uso da cor roxa, a ausência do hino de Glória durante as celebrações e a realização da Via-sacra, práticas que reforçam a espera pela ressurreição.
Quaresma e Cultura Popular
Para além das normas eclesiásticas, a cultura popular de Minas Gerais interpreta a Quaresma como um momento de extrema delicadeza espiritual. No imaginário das cidades do interior, acredita-se que, assim como Satanás tentou Jesus no deserto, as forças sombrias e as criaturas do folclore nacional estariam mais ativas e “à solta” durante essas semanas. Este período inspira um vasto conjunto de tradições folclóricas e restrições de comportamento que em outros momentos eram realizados sem preocupação. Antigamente, evitava-se cantar, dançar ou usar roupas excessivamente coloridas, sinais de vaidade considerados incompatíveis com o luto espiritual. As noites quaresmais tornam-se, assim, palco para narrativas de lobisomens, da ‘Mula sem Cabeça’ e de porcas monstruosas que, segundo a crença, vagueiam pelos bosques e ruelas para punir aqueles que não guardam o devido resguardo.
Mariana e a Procissão das Almas
Um exemplo vivo de como essa cultura permanece é a Procissão das Almas em Mariana. Realizada tradicionalmente à meia-noite e cinco (00h05) do Sábado de Aleluia, ela marca a transição da dor da Sexta-feira Santa para a esperança da Ressurreição.

Participantes vestidos de branco e encapuzados percorrem as ruas com matracas e tochas, encenando o cortejo fúnebre. A tradição evoca a lenda da “Maricota”, uma mulher curiosa que teria morrido de susto após observar o cortejo e receber o fatídico osso humano de uma alma. Hoje, o evento é uma mistura de manifestação de fé e resgate folclórico que atrai turistas e moradores, mantendo viva a mística da “Primeira Capital de Minas”.







